Desconto não é estratégia: como vender valor em vez de brigar apenas por preço – Com Renata Biral

Vender valor se tornou uma das maiores necessidades das áreas comerciais que convivem diariamente com pressão por desconto, metas agressivas e negociações cada vez mais complexas dentro do varejo e da distribuição.

Poucos temas geram tanta tensão nas áreas comerciais quanto a pressão constante por preço. 

Em reuniões de negociação, muitas empresas chegam preparadas para discutir crescimento, posicionamento, execução e oportunidades de mercado, mas frequentemente veem toda a conversa ser reduzida a uma única pergunta: quanto mais é possível descontar?

O problema não está no desconto em si. Em muitos momentos, ele faz parte da estratégia e pode ser uma ferramenta legítima para acelerar resultados. 

A dificuldade surge quando essa passa a ser praticamente a única alternativa utilizada para conquistar volume, abrir espaço no varejo ou fechar negócios.

Quando isso acontece, a negociação comercial deixa de ser uma discussão sobre construção de valor e se transforma em uma disputa permanente por preço. 

O resultado costuma aparecer rapidamente na redução da margem de lucro, na fragilização da percepção da marca e na criação de relacionamentos comerciais cada vez mais dependentes de concessões financeiras.

Na avaliação de Renata Biral, especialista em vendas, Trade Marketing e estratégias de crescimento, empresas que desejam construir resultados sustentáveis precisam ampliar o foco da conversa. 

Mais do que negociar preços, é necessário compreender comportamento de compra, sellout, execução, abastecimento e os fatores que realmente impulsionam o crescimento de uma categoria.

Vender valor exige informação antes de exigir argumentação

Muitos profissionais acreditam que vender valor depende apenas da habilidade de negociação ou da capacidade de defender melhor um produto durante uma reunião. Embora comunicação seja importante, a construção de uma negociação baseada em valor começa muito antes da conversa com o cliente.

Ela nasce da informação.

Uma empresa que conhece profundamente seus indicadores consegue identificar oportunidades que vão muito além da simples redução de preço. Dados sobre sellout, comportamento do consumidor, ruptura, sortimento, abastecimento e execução permitem compreender o que realmente está acontecendo dentro de cada operação.

Quando a equipe comercial possui esse nível de conhecimento, a conversa deixa de girar exclusivamente em torno de preço e passa a abordar crescimento, rentabilidade e geração de resultados para ambos os lados.

Isso muda completamente a qualidade da negociação.

Em vez de discutir apenas quanto custa um produto, a empresa passa a demonstrar quanto valor ele é capaz de gerar.

O problema nem sempre está no preço

Uma das maiores armadilhas do ambiente comercial é acreditar que qualquer dificuldade de venda tem origem na precificação.

Essa conclusão rápida costuma levar empresas a conceder descontos antes mesmo de entender a verdadeira causa do problema.

Na prática, diversas situações que impactam o desempenho de uma categoria não possuem relação direta com preço.

Em muitos casos, o consumidor não encontra o produto porque ele está em ruptura. Em outros, a exposição inadequada reduz a visibilidade da marca no ponto de venda. Também existem situações em que o mix disponível não atende ao perfil de compra daquela região ou daquele canal.

Quando esses problemas não são identificados, o desconto acaba funcionando como uma espécie de paliativo. Ele pode gerar um aumento momentâneo de volume, mas dificilmente resolve a origem da dificuldade.

Por isso, empresas que desejam fortalecer sua estratégia comercial precisam olhar para toda a jornada de compra e não apenas para a etiqueta de preço.

Negociação comercial precisa falar sobre crescimento

O mercado mudou e a forma de negociar também precisa mudar.

Durante muitos anos, boa parte das negociações entre indústria, distribuição e varejo girava em torno de três variáveis principais: preço, volume e prazo.

Hoje, essa lógica já não é suficiente.

A negociação comercial moderna exige uma visão mais estratégica sobre o negócio como um todo. Isso significa discutir potencial de categoria, oportunidades de sellout, comportamento do shopper, execução no ponto de venda e rentabilidade de longo prazo.

Quando um fornecedor leva esse tipo de análise para a mesa, ele deixa de atuar apenas como vendedor e passa a ocupar uma posição mais estratégica dentro da operação do cliente.

Essa mudança fortalece a relação comercial porque desloca o foco da disputa por margem para a construção conjunta de resultados.

Empresas que conseguem fazer essa transição costumam criar parcerias mais sólidas e menos vulneráveis às pressões constantes por desconto.

A dependência de desconto compromete a margem de lucro

O desconto pode ser uma ferramenta eficiente quando utilizado com inteligência e objetivos claros.

O problema começa quando ele se transforma em hábito.

Quando toda negociação depende de concessões financeiras, a empresa cria uma dinâmica perigosa. O cliente passa a esperar descontos recorrentes, a equipe comercial perde poder de argumentação e a rentabilidade começa a ser pressionada de forma contínua.

Esse processo normalmente acontece de maneira gradual.

Em um primeiro momento, os resultados parecem positivos porque o volume cresce. Com o tempo, porém, a organização percebe que o aumento das vendas não está sendo acompanhado pela mesma evolução na lucratividade.

Nesse cenário, vender mais deixa de significar ganhar mais.

Por isso, vender valor não é apenas uma estratégia comercial. Trata-se também de uma estratégia de preservação financeira.

Empresas que conseguem fortalecer a percepção de valor de seus produtos e serviços reduzem a dependência de descontos frequentes e protegem melhor suas margens.

O sellout se tornou uma ferramenta estratégica

Entre todas as informações disponíveis para a tomada de decisão comercial, poucas ganharam tanta relevância nos últimos anos quanto o sellout.

Enquanto o sell-in mostra aquilo que foi vendido para o canal, o sellout revela o que efetivamente chegou às mãos do consumidor.

Essa diferença parece simples, mas possui enorme impacto estratégico.

Ao acompanhar o sellout, as empresas conseguem identificar padrões de compra, avaliar a efetividade de ações promocionais, entender o desempenho de categorias específicas e corrigir problemas operacionais com muito mais precisão.

Segundo Renata Biral, organizações que estruturam sua estratégia comercial a partir dessa visão ampliada conseguem reduzir significativamente a necessidade de utilizar desconto como principal motor de crescimento.

Isso acontece porque passam a atuar sobre as verdadeiras alavancas que impulsionam resultados.

Equipes comerciais precisam evoluir junto com o mercado

A transformação das negociações também exige uma transformação dos profissionais que conduzem essas negociações.

Durante décadas, muitos vendedores foram treinados para apresentar produtos, defender preços e fechar pedidos. Embora essas competências continuem importantes, elas já não são suficientes para atender às demandas do mercado atual.

O cliente espera cada vez mais inteligência, conhecimento e capacidade analítica.

Por essa razão, equipes comerciais precisam desenvolver uma visão mais ampla do negócio. Isso inclui compreender indicadores, interpretar tendências de consumo, analisar oportunidades de categoria e construir propostas que gerem valor para toda a cadeia.

A venda consultiva deixou de ser diferencial e passou a ser requisito básico para quem deseja atuar de forma estratégica.

Quanto maior a capacidade de gerar insights relevantes para o cliente, menor será a dependência de argumentos baseados exclusivamente em preço.

Vender valor cria relações comerciais mais sustentáveis

As empresas que constroem crescimento consistente ao longo do tempo costumam compartilhar uma característica importante: elas entendem que o objetivo não é vencer uma negociação isolada, mas fortalecer uma relação comercial duradoura.

Quando a conversa envolve giro, execução, rentabilidade, abastecimento, experiência de compra e geração de demanda, o relacionamento evolui para um nível mais estratégico.

O cliente passa a enxergar valor na parceria.

O fornecedor fortalece sua relevância dentro da operação.

E a negociação deixa de ser guiada apenas por pressões pontuais de preço.

Isso não significa eliminar descontos da estratégia comercial. Eles continuam tendo seu papel em determinadas situações. A diferença está em compreender que essa é apenas uma das alavancas disponíveis.

Como destaca Renata Biral, desconto é uma alavanca comercial, mas ele não pode ser a única.

Empresas que entendem essa lógica conseguem construir relações mais rentáveis, sustentáveis e preparadas para enfrentar os desafios de um mercado cada vez mais competitivo.

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Com mais de duas décadas de experiência em vendas, Trade Marketing, gestão comercial e canais de distribuição, Renata construiu uma trajetória sólida liderando projetos de crescimento em grandes organizações e acompanhando de perto as transformações do comportamento de compra e do varejo brasileiro.

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Renata Biral

Renata Biral é especialista em Trade Marketing, vendas, varejo farmacêutico e canal indireto, com 25 anos de experiência conectando indústria, varejo e distribuição para gerar crescimento real.

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