1. Tássia, antes de tudo, agradecemos muito pela sua disponibilidade e pelo tempo dedicado a esta entrevista. Sua trajetória reúne nutrição, empreendedorismo, comportamento, liderança e espiritualidade. Em que momento você percebeu que essas áreas, aparentemente diferentes, faziam parte de uma mesma mensagem sobre a vida da mulher?
Desde que vivi muitas pressões emocionais, briga constante com a balança, e mesmo fazendo tudo certo na rotina de alimentação não tinha resultados. Então fui observar todas as áreas da minha vida, e percebi que enquanto não equilibrasse meu corpo, mente e espírito nada sairia do lugar.
2. Muitas mulheres conseguem cuidar da empresa, da família, dos filhos, da equipe e de inúmeras responsabilidades, mas deixam o próprio cuidado sempre para depois. Quais sinais mostram que uma mulher passou tempo demais nutrindo todo mundo ao redor e começou a se abandonar?
Quando o brilho começa a sumir, quando o cansaço faz parte de toda a rotina, quando não queremos mais nos arrumar e fazer coisa que amamos, quando só temos prazer quando estamos fazendo pros outros, e quando ficamos sozinhas sentimos vazio ao invés de paz, quando nossa aparência foi deixada de lado, quando temos vontade de largar tudo todos os dias, são muitos sinais às vezes pequenos, outras vezes já bem maiores presentes no nosso dia.
3. Você trabalha com a ideia de que “tudo aquilo que você ama precisa ser nutrido, começando por você”. Na prática, por que tantas mulheres conseguem oferecer cuidado, tempo e energia aos outros, mas sentem culpa quando direcionam esses mesmos recursos para si?
Porque muitas de nós aprendemos, desde cedo, que ser uma boa mulher é estar disponível, dar conta de tudo e colocar as necessidades dos outros primeiro. E, quando o nosso valor fica ligado ao quanto fazemos por alguém, cuidar de nós mesmas pode parecer egoísmo.
Mas também existe uma sobrecarga real: às vezes, falta tempo, apoio e alguém com quem dividir as responsabilidades. Não basta dizer a essa mulher “se priorize” sem olhar para tudo o que ela sustenta.
Quando digo que tudo aquilo que você ama precisa ser nutrido, começando por você, estou falando de se incluir nesse cuidado. É se alimentar com atenção, descansar, pedir ajuda e estabelecer limites, mesmo que a culpa apareça no início.
A mulher merece cuidado pelo que é, não apenas pelo que oferece. E não precisa chegar ao esgotamento para ter direito a recebê-lo.
4. Quando falamos em nutrição, normalmente pensamos apenas em comida. Na sua visão, de que forma a relação com a alimentação pode revelar emoções, padrões de comportamento, ansiedade, compensações e até a maneira como uma mulher se relaciona consigo mesma?
Todo excesso, esconde uma falta. Muitas vezes a mulher carrega frustrações, tristezas, carências afetivas, e como comer está ligado aos prazeres da vida e libera serotonina que é o hormônio do prazer, muitas vezes recebem acolhimento e compensações nesse momento do comer.
E a gordura é isolante térmico, então quando mais eu me proteger com a gordura ( inconscientemente falando) menos carente me sinto e mais protegida estou. Só que isso traz dores profundas e problemas muitas vezes de saúde associados. Então o trabalho e relação com a comida é muito antes do simples fato de comer.
5. Muitas mulheres vivem entre períodos de dieta rígida, culpa, exagero e novas tentativas de controle. Como construir uma relação mais saudável com a alimentação sem transformar o cuidado com o corpo em punição?
O primeiro passo é mudar a pergunta: em vez de “como eu controlo mais o que como?”, perguntar “como eu posso me alimentar e me cuidar melhor?”. Porque saúde também envolve a forma como nos tratamos antes, durante e depois de uma refeição.
Na prática, isso significa construir uma alimentação possível para a sua rotina, com regularidade, variedade e espaço para o prazer. É aprender a reconhecer a fome e a saciedade, respeitar as necessidades do corpo e entender que comer algo gostoso não exige uma compensação depois.
Um brigadeiro não define a sua saúde, assim como uma salada não resolve tudo. O que merece atenção é o conjunto dos hábitos e a relação que você constrói com eles. Se uma refeição foi além do que você precisava, a próxima pode seguir normalmente, sem jejum como castigo ou exercício para “pagar” pelo que comeu.
Também precisamos olhar com acolhimento para o que acompanha esse comer: cansaço, ansiedade, privação, falta de tempo. Quando há sofrimento ou perda de controle frequente, buscar acompanhamento faz parte do cuidado.
6. Como nutricionista e chef de cozinha, você defende que comer saudável também pode ser prazeroso. O que costuma impedir as pessoas de manter uma alimentação equilibrada no longo prazo e como tornar escolhas saudáveis mais possíveis dentro da rotina real?
As pessoas, elas ainda por não viverem no mundo do estilo de vida saudável, criam resistências por não conhecer as opções que hoje o mundo da alimentação saudável oferece.
Hoje encontra muitos sabores incríveis nesse mundo, e caiu por terra a ideia que ser saudável é comer comida sem gosto e de hospital. E o que falta também é a mentalidade de constância e equilíbrio.
O ser humano ele é movido a momentos, vai se preparar pra um carnaval, dieta restrita até consegui resultado, após isso relaxa, vai ter um evento, mesma coisa.
Se você faz isso diariamente, independente da ocasião você cria um estilo de vida saudável, onde você pode comer e fazer tudo que quiser, pois terá equilíbrio de sempre retornar. Então equilíbrio e constância são os principais ingredientes para uma rotina saudável alimentar e de atividade física.
7. Existe uma diferença entre querer transformar o próprio corpo por autocuidado e tentar modificá-lo por rejeição ou falta de amor-próprio? Como perceber de qual lugar está vindo esse desejo de mudança?
Quando existe autocuidado, há espaço para respeitar limites, descansar, ajustar expectativas e reconhecer benefícios além do espelho, como disposição, força e bem-estar. Quando a rejeição predomina, a mudança pode virar uma condição para viver: “só vou à praia quando emagrecer”, “só vou merecer carinho quando tiver outro corpo”.
Eu convido essa mulher a se perguntar: “Essa mudança faz sentido para mim ou estou tentando corresponder ao olhar de alguém?
O caminho que escolhi cabe na minha vida? Se o resultado demorar, ainda consigo me tratar com respeito?” Essas perguntas ajudam a perceber a origem do desejo, sem transformar isso em mais um julgamento. Você não precisa amar cada parte do seu corpo para começar a cuidar dele.
8. Amor-próprio é uma expressão muito usada, mas muitas vezes de forma superficial. Para você, como o amor-próprio aparece em comportamentos concretos- nas escolhas, nos limites, na alimentação, nos relacionamentos e na forma como a mulher administra o próprio tempo?
Para mim, o amor-próprio aparece na maneira como a mulher se inclui nas próprias decisões. É conseguir perguntar: “O que eu preciso? O que eu consigo oferecer sem me sobrecarregar? Essa escolha respeita o que é importante para mim?” Nos limites, aparece quando ela consegue dizer “hoje não posso” ou “preciso de ajuda”.
Na alimentação, quando reserva um momento para comer, busca se nutrir e permite sentir prazer, sem transformar cada refeição em uma avaliação do próprio valor. Nos relacionamentos, é reconhecer que suas necessidades também merecem ser ouvidas e que respeito e reciprocidade fazem parte do vínculo.
Na administração do tempo, é entender que descanso, saúde e momentos de alegria precisam ter espaço na agenda, dentro das possibilidades reais da sua vida. E isso não depende só de força de vontade. Muitas mulheres precisam de apoio e de uma divisão mais justa das responsabilidades para conseguir se cuidar.
Amor-próprio também é a forma como você se trata quando não consegue dar conta. É poder reconhecer um erro, rever uma escolha e recomeçar sem se humilhar. Para mim, ele se torna concreto quando o cuidado que oferecemos aos outros começa a nos incluir também.
9. No Nutrir & Amar, você trabalha seis pilares: corpo, mente, coração, espírito, propósito e prosperidade. Por que olhar apenas para uma dessas áreas costuma ser insuficiente quando a mulher sente que sua vida está desequilibrada?
Porque não somos um conjunto desses pilares, se uma das cordinhas estiverem rompidas, sempre vai existir uma falta. Não significa que só será feliz se tiver todos os pilares 100%, mas todos em construção, todos em busca de equilíbrio, em busca da prosperidade em todas as áreas da vida. Não é sobre se tornar rico de dinheiro, mas risco de propósitos, rico de pertencimento.
10. Se uma mulher percebe que vários desses seis pilares estão fragilizados ao mesmo tempo, por onde começar? Existe algum critério para identificar qual área precisa ser nutrida primeiro?
Se todos estão em desequilíbrio, o que indico primeiro é o fortalecimento do espírito e da mente em primeiro lugar. Para mim é o centro de tudo, que vai te dar forçar e te impulsionar pro restante dos pilares.
11. Quando falamos em equilíbrio entre corpo, mente e espírito, existe o risco de vender uma ideia de vida perfeitamente equilibrada que não existe na prática. O que significa equilíbrio para uma mulher que trabalha, lidera, cuida de pessoas e enfrenta períodos naturalmente mais exigentes?
Na prática, eu procuro olhar para três perguntas: “Como meu corpo está? O que está pesando na minha mente? O que me ajuda a encontrar sentido e sustento para continuar?”. As respostas podem pedir uma refeição com calma, uma conversa, descanso, uma oração ou uma decisão difícil de adiar.
A espiritualidade, para mim, oferece acolhimento e direção, inclusive para reconhecer limites e aceitar ajuda. Ter fé também permite dizer: “Hoje está difícil, eu preciso de apoio”. E precisamos falar de condições reais: uma mulher sobrecarregada precisa de responsabilidades divididas, de apoio e, às vezes, de rever o que está assumindo. Organizar melhor a agenda tem um alcance limitado quando tudo depende dela.
Eu entendo equilíbrio como a possibilidade de ajustar a rota sem se abandonar no caminho. Uma fase exigente pode fazer parte da vida, mas o esgotamento constante merece atenção. O cuidado precisa caber na vida real e ajudar a torná-la mais possível.
12. Você inclui o movimento como parte importante do cuidado com o corpo. Como diferenciar movimento como punição estética de movimento como energia, saúde, presença e reconexão consigo mesma?
Uma pergunta que eu gosto de propor é: “Se o espelho não mudasse agora, o que ainda faria esse movimento valer a pena para mim?” Ela ajuda a encontrar motivos que sustentem o cuidado para além do resultado visual.
Na prática, é escolher uma atividade que faça sentido para sua vida, adaptar a intensidade quando necessário e permitir o descanso. Pode ser dançar, caminhar, nadar, fazer musculação. Nem todo dia será prazeroso, e um esforço desafiador também pode ser cuidado, desde que haja respeito por si.
Eu quero que a mulher encontre no movimento uma oportunidade de habitar o próprio corpo com mais confiança, presença e liberdade.
(Continua na parte 2…)
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