Palestras de Sucesso Entrevista Patricia Capeluto

1- Palestrante de Sucesso, Patricia Capeluto! Estamos em festa por tê-la conosco e desde já, gratidão por nos atender. De início, um questionamento muito comum no cenário corporativo: o que um profissional que busca atuar em alta performance pode fazer para se comunicar e negociar com mais confiança e assertividade?

Então estamos em festa juntos, estou muito feliz com essa parceria com a Sucesso.

Em geral, quando as pessoas pensam em comunicação e negociação, elas pensam em como falar melhor e como argumentar melhor. Mas existe um movimento muito mais importante que vem antes desses dois e é parte integrante deles: escutar melhor. A escuta vai permitir que se entenda o mundo do outro, suas dores, o que é importante para ele, o que o mobiliza. A escuta permite a entendimento das expectativas e dos problemas. Desta forma, a fala será mais assertiva, direta ao ponto, mais eficaz, mais confiante. Os grandes comunicadores e grandes negociadores sabem que o poder da comunicação está na escuta, não na fala. A natureza é sábia, não é por acaso que temos dois ouvidos e apenas uma boca. O profissional que sabe escutar é um profissional diferenciado.

Depois da escuta, existem estruturas de comunicação que ajudam a construir uma fala assertiva e influente, de fácil entendimento.

2- Um tema sensível no ambiente corporativo diz respeito à liderança. Afinal, uma dor recorrente que o líder ou a líder encontra muitas vezes, é o fato de não conseguir melhorar o processo de feedback com o time. Outro desafio é a falta de se conectar melhor com o time e exercer o poder de influência. Como a liderança da empresa pode reverter tais quadros e gerar mais comprometimento e engajamento?

Um erro recorrente é desejar que as mudanças dos colaboradores ocorram a partir de feedbacks formais, dados em prazos estabelecidos pela empresa, geralmente trimestrais, semestrais ou anuais.

O momento do feedback costuma trazer ansiedade para quem o dá e para quem o recebe. Quem o dá, muitas vezes não está preparado para isso. E diante de uma possibilidade de feedback negativo, quem o recebe não fica disponível para escutar, ele está concentrado em atacar ou se defender das críticas.

É preciso construir confiança para esse tipo de diálogo. E confiança se constrói nos momentos de interação do dia a dia, não nos momentos de enfrentamento. Nos momentos de enfrentamento, vai ajudar muito se a confiança já estiver estabelecida.

As pessoas confiam num líder quando percebem que ele se importa com elas. Confiam quando elas sentem que são ouvidas, quando têm espaço para expressarem suas opiniões, quando participam do debate sobre as decisões que serão tomadas. E nesse cotidiano, os feedbacks informais e as trocas podem acontecer com mais naturalidade. Influência também é sobre confiança, o colaborador vai perceber que é “seguro” escutar a crítica, vai entender a boa intenção que tem por trás dela. E essa sensação de pertencimento e respeito ajudará a promover o comprometimento e engajamento.

3- No contexto atual, cada vez mais notamos a importância do profissional se empoderar das técnicas de apresentação e oratória, fatores que você mostra total domínio. Conta para a gente, no quanto a oratória pode impactar na vida e na carreira de uma pessoa? Com vencer o medo de falar em público?

Realmente, o mensageiro é tão ou mais importante que a mensagem. Para o bem e para o mal. Quantas vezes já vimos pessoas que sabem se vender, mas não dominam o conhecimento, as técnicas? Por outro lado, quantas vezes vemos profissionais que tem um notório saber, mas não sabem como “passá-lo”?

Estamos numa era de atenção escassa e que se dispersa rapidamente. Um bom orador tem uma fala que impacta, prende a atenção e desperta a curiosidade logo no início da abordagem. Isso se chama influência efetiva, que é quando as pessoas param pra te ouvir. O valor disso na vida pessoal e profissional é imensurável.

Essas habilidades podem ser aprendidas e a prática vai aperfeiçoando o discurso, pois também começamos a entender os equívocos que cometemos em nossas apresentações e abordagens do dia a dia.

Sobre o medo de falar em público, na verdade o medo é de FALHAR em público. Medo do julgamento, da exposição. Mas é possível fazer um trabalho para lidar com essas armadilhas emocionais e conhecer recursos que trarão mais segurança à fala.

4- Conflitos são uma constante no relacionamento interpessoal, sobretudo no mundo dos negócios. Como fazer melhores acordos mesmo quando estamos diante de conversas difíceis e sob stress?

Por que as conversas se tornam difíceis? Penso que essa é a primeira pergunta a ser feita. Nós entramos em conflitos e os criamos sem nem perceber. Quando estamos diante de uma conversa difícil, só temos três perguntas em mente: Quem está certo? Quem está errado? De quem é a culpa? Como teremos uma conversa saudável assim?

É preciso conhecer as armadilhas que existem nos diálogos e os tornam difíceis, para poder lidar com elas. Esse entendimento vai baixar a pressão emocional e permitir mais autocontrole quando as coisas ficarem estranhas. E poderemos tomar ações específicas para botar a conversa no rumo e diminuir os ruídos de comunicação.

No fundo isso é sobre entender de pessoas. Por que pessoas fazem o que fazem (ou não fazem o que não fazem)? Por que elas falam o que falam da maneira que falam? Quando entendemos isso, sabemos o que fazer. Aí os melhores acordos se tornam possíveis.

5- Conta para gente como foi a experiência de se tornar uma TEDx Speaker? 

Foi incrível, a realização de um sonho! Uma palestra TED é um desafio, devido ao tempo limitado. A proposta é exatamente essa, trazer uma ideia que valha a pena ser compartilhada, em pouco tempo. Eu tive 7 minutos para isso. E cumpri a missão. Mas viciei nesse negócio, quero fazer de novo.

6- Negociar faz parte da nossa rotina. E não são raras as situações onde em uma negociação, nosso interlocutor aparenta um certo grau de agressividade. O que costuma acontecer nesses casos é que, via de regra, tomamos isso como algo pessoal. Como não pegar isso para nós e desenrolar a negociação de forma amistosa, sem um maior conflito?

Um dos grandes problemas da comunicação é que nós aprendemos a expressar nossos incômodos criticando, julgando, acusando e culpando o outro. Aí a fala pode soar agressiva para ele. Automaticamente ele se coloca em postura ofensiva ou defensiva. É fisiológico, mecanismo de sobrevivência mesmo.

Isso é comum de acontecer e normalizamos e perpetuamos esse padrão sem nos darmos conta dele.

Negociar é se comunicar. Para não tomarmos falas duras como algo pessoal, é preciso primeiro ter consciência dessa dinâmica. Depois é preciso prática, para conseguir olhar por debaixo da superfície e perceber o que está por detrás da fala agressiva. Entender o que está mobilizando o outro e a partir daí conduzi-lo para um diálogo ou negociação que permita acordo e entendimento. É fácil? Não. Mas é possível.

7. No núcleo das empresas, sabemos que o trabalho em equipe ocupa uma posição de destaque. Quais são os maiores dificultadores e desafios encontrados no trabalho em equipe? Como lidar com eles?

Essa é uma pergunta que faço nas empresas quando estou dando palestras ou treinamentos. A resposta em geral é: as pessoas são muito diferentes.

Isso é uma verdade. As pessoas têm histórias, percepções, valores diferentes. Mas essa é uma resposta que não leva a ações de solução.

Há cinco grandes desafios no trabalho em equipe (segundo o autor Patrick Lencioni): Falta de confiança, medo de conflito, falta de comprometimento, baixa responsabilização, falta de atenção aos resultados.

É uma pirâmide de disfunções que dá muita clareza para identificar qual é o problema e como lidar com ele. A base dessa pirâmide é a construção de confiança. Sem ela, fica bem difícil lidar com os outros desafios.

8-Com os últimos acontecimentos no mundo, como pandemia e a guerra da Rússia com a Ucrânia, me veio à mente uma canção chamada “O mundo anda tao complicado”. E é nesse aspecto que gostaria de lhe questionar: como protegermos a tríade família, trabalho, saúde mental, diante de tantos reveses e cenários de crise como estamos observando agora?

Guerra é quando a capacidade de dialogar acabou e isso é algo muito triste. Nós que estamos longe do conflito (ou não), tentamos nos manter informados e seguir nossa vida cotidiana, mas a revolta, a indignação, a preocupação já ocuparam espaço em nós e nos mobilizam. Porque nos importamos.

Como proteger a tríade família, trabalho e saúde mental?

Vejo alguns caminhos possíveis e todos eles partem de dentro. É preciso cuidar do que está dentro para poder lidar com o que está fora.

Aquelas coisas tão básicas que sabemos sobre autocuidado ajudam a nos ancorar para não perder o prumo: exercício físico, alimentação saudável, meditação, a espiritualidade. Em tempos difíceis lembramos de valorizar os afetos e de trazê-los para perto, lembramos de agradecer por nossos privilégios. Em tempos difíceis precisamos selecionar a informação que chega, não para nos alienarmos, mas para conseguirmos seguir em frente.  

Quando as desgraças do mundo me abalam, eu busco pensar no que eu posso controlar.

Eu posso usar a minha voz para dar voz a quem não tem, eu posso ajudar os menos privilegiados, eu posso oferecer escuta e empatia para quem está mais derrubado. Nunca foi tão urgente a necessidade de caminharmos juntos. Fica menos difícil seguir, pois juntos somos muito melhores.

9-Problemas de comportamento e relacionamento encabeçam a lista de motivos que levam as empresas a demitirem seus colaboradores. Diante desse cenário, conta pra nós quais as habilidades mais importantes para um indivíduo que deseja ser bem-sucedido, se aperfeiçoar, e ter relacionamentos saudáveis, tanto na esfera corporativa quanto na vida pessoal? 

Na esfera corporativa: A dobradinha soft skills + hard skills (competências comportamentais e técnicas). As soft skills sendo encabeçadas pela Comunicação, que é a habilidade mais desejada dos empregadores (segundo uma pesquisa do Linkedin Global de 2020 feita com 12 milhões de empregadores).

Na esfera pessoal, penso que a comunicação é o carro chefe também. A vida fica mais simples, os ruídos menores, você tem paz de espírito, suas relações têm menos atritos, tudo flui melhor.

Quando pensamos na habilidade de comunicação, pensamos logo que é sobre a forma de falar, mas ela vai muito além. Ela potencializa e aprofunda o autoconhecimento, o entendimento de como os seres humanos funcionam e o modo como se relacionam; influi em nossa visão do mundo e também como enxergamos a nós mesmos. Investir na comunicação é investir na humanização

10-O que você pode nos falar acerca da Comunicação Não Violenta? Quais seus benefícios para as empresas e como aplicá-la?

Eu vejo a CNV como a mais importante das metodologias da comunicação. Pois ela não é apenas uma metodologia, é uma filosofia de vida que muda sua forma de se relacionar com as pessoas, com o mundo e com você mesmo.

O Marshall Rosenberg, precursor da CNV, mediou conflitos de guerras, de tribos africanas, de gangues de rua e dizia que o ambiente mais violento que ele conheceu era o ambiente corporativo. Nós aprendemos que para sermos “profissionais” precisamos negligenciar nossos sentimentos e necessidades e também os dos outros em prol de um resultado. Aí as empresas passam a ser lugares onde temos receio de nos posicionarmos, de compartilharmos medos, erros, inseguranças. É a violência invisível.

Existem diversas pesquisas que mostram como ambientes adversos e comunicação e relacionamentos ruins nas empresas, impactam na produtividade, no comprometimento, na saúde mental e na felicidade dos colaboradores, no clima organizacional, aumentam a rotatividade.

A CNV nos dá recursos para construirmos ambiente saudáveis, para termos conversas difíceis, para falarmos sobre que é importante para nós com assertividade e clareza, de modo que o outro tenha mais disponibilidade para nos escutar e facilidade para nos entender.

Tem uma definição muito bacana para a CNV: revolução interna. Foi assim na minha vida e percebo que também foi assim para os profissionais para quem facilitei processos com a CNV

11- Patricia Capeluto: qual é a conversa mais difícil de todas? 

A conversa que temos com nós mesmos. Aquele diálogo interno, de identidade, que pode ser muito duro, que pode nos sabotar. A chibata que muitas vezes usamos para nos punir e nos culpar. Um diálogo interno que pode remeter à impossibilidades e incapacidades. A Comunicação Não Violenta aborda isso também e nos dá recursos para termos conversas mais gentis conosco. Passa pela auto responsabilização e por uma maior conscientização do que é importante para a gente. Para que possamos cuidar disso e para que essa conversa se torne mais fácil.

12-  Mais uma vez, muito obrigado pela atenção e generosidade em compartilhar seu conhecimento conosco e com os demais leitores. O espaço a seguir é seu, deixe seu recado!

Tudo que compartilho e ensino em palestras e treinamentos, eu aplico na minha vida. E afirmo com convicção: não precisa ser tão difícil nos relacionarmos com os outros. Não precisamos ter medo das conversas difíceis, não precisamos calar nossa voz por não sabermos como falar. Tudo isso é um aprendizado possível e torna a vida muito mais simples e feliz. E minha missão (uma delas) é multiplicar esse conhecimento de forma prática, em linguagem acessível e muito bem humorada.

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