Palestras de Sucesso Entrevista Marco Azizi – Parte 2

8. Sob pressão, algumas equipes se unem e outras começam a procurar culpados. O que faz uma equipe manter confiança e colaboração justamente quando algo dá errado?

A divisão de uma equipe no momento da falha é o divisor de águas entre grupos comuns e times de verdadeira alta performance. A diferença fundamental entre a busca por culpados e a busca por soluções reside na cultura de responsabilidade coletiva e na presença de segurança orientada ao aprendizado.
​Quando algo dá errado sob pressão, a reação do time é moldada pela liderança existente.

9. Em uma Seleção, assim como em uma empresa, existem profissionais com funções muito diferentes e níveis distintos de visibilidade. Como fazer cada pessoa compreender que sua entrega individual pode ser decisiva para o resultado coletivo?

Em equipes de alta performance — seja no futebol, em um ambiente corporativo —, o maior risco operacional é o analfabetismo de impacto, quando um profissional não consegue enxergar a linha direta entre a sua tarefa diária e o resultado final da organização.
​Quando quem atua nos bastidores se sente irrelevante, o padrão de entrega cai. Para fazer com que cada pessoa, independentemente da visibilidade do seu cargo, compreenda sua importância decisiva, a liderança deve existir.

10. O esporte de alto rendimento trabalha intensamente com preparação antes da competição. O que as empresas poderiam fazer melhor antes das crises, mudanças ou momentos de grande pressão para não depender apenas de improvisação quando o problema aparece?

O esporte de elite e as empresas de alta complexidade entendem que o momento da pressão não é a hora de aprender, mas a hora de executar. A diferença brutal entre uma equipe que performa no caos e uma que entra em pânico é a preparação prévia do repertório.
​As empresas erram ao tratar crises como eventos imprevisíveis que exigem “heroismo e improviso”, em vez de tratá-las como cenários mapeáveis que exigem treinamento e memória operacional, para não depender da sorte ou do improviso quando a pressão subir.

11. Depois de tantos anos acompanhando atletas e equipes, o que você aprendeu sobre disciplina que contraria a ideia de que alta performance depende principalmente de motivação?

A ideia de que a alta performance é movida a motivação constante é uma das maiores ilusões do mundo moderno. Ao acompanhar atletas de elite, equipes olímpicas e profissionais em ambientes de altíssima pressão, fica evidente que a motivação é passageira, inconstante e não suporta o desgaste do tempo.
​A disciplina de alta performance não funciona como um “impulso de força de vontade”, mas sim como um sistema de proteção contra a oscilação emocional.

12. Existe uma diferença entre pressão que melhora o desempenho e pressão que começa a paralisar a equipe. Quais sinais mostram ao líder que a cobrança deixou de ser produtiva?

O papel do líder não é esticar a corda infinitamente até que ela arrebente, mas saber exatamente até onde o time pode ser exigido e aliviar a pressão no momento certo para que o padrão de excelência continue sendo entregue.

13. Muitas vezes, resiliência é interpretada simplesmente como “aguentar mais”. Em que momento ser resiliente significa mudar a estratégia, reconhecer limites, pedir ajuda ou tomar uma decisão diferente?

A verdadeira resiliência não é sobre o quanto você consegue apanhar sem cair; é sobre a velocidade e a inteligência com que você aprende com a pancada, reconhece os limites do plano atual e toma a decisão necessária para continuar no jogo.

14. Marco, agradecemos novamente por compartilhar conosco sua experiência e seus aprendizados. Para encerrarmos, que mensagem você gostaria de deixar aos líderes e profissionais que hoje precisam conduzir pessoas, tomar decisões e continuar buscando resultados em um cenário de pressão e incerteza?

Muito obrigado por essa oportunidade e pela profundidade desta conversa.

​Se eu pudesse deixar uma única mensagem para cada líder e profissional que enfrenta diariamente a pressão por resultados e a volatilidade do mercado, seria esta:

​Não tentem ser heróis; construam sistemas confiáveis e cuidem de quem está no campo com vocês.

​Nos momentos de maior incerteza e crise, o erro mais comum é achar que a liderança exige ter todas as respostas, demonstrar invulnerabilidade ou carregar o peso da organização sozinho.

A verdadeira força de um líder não está na sua capacidade de absorver o impacto isoladamente, mas na sua habilidade de criar um ambiente onde as pessoas se sintam preparadas, protegidas e com clareza para agir.

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Marco Azizi

Marco Azizi é médico, professor universitário e profissional do esporte de alto rendimento, com atuação na Seleção Brasileira de futebol masculino e participação na conquista do ouro olímpico em Tóquio.

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