Você trabalha para dar tudo aos seus filhos. E se o trabalho estiver tirando justamente aquilo que eles mais precisam? Com Marcos Piangers

Existe uma contradição silenciosa na vida de muitos pais: quanto mais responsabilidade sentem pela família, mais trabalham para garantir conforto, segurança e oportunidades.

O esforço costuma nascer de um lugar legítimo. A pessoa quer pagar uma boa escola, oferecer experiências que não teve, construir uma reserva financeira e evitar que os filhos passem pelas mesmas dificuldades que conheceu.

O problema começa quando essa tentativa de proporcionar uma vida melhor ocupa tanto espaço que a convivência passa a acontecer apenas quando sobra tempo.

Marcos Piangers conhece essa contradição de perto. Autor de O Papai é Pop, comunicador e um dos nomes mais conhecidos do Brasil quando o tema é paternidade, ele já contou publicamente sobre um período em que sua carreira crescia, as viagens aumentavam e novas oportunidades apareciam.

Em uma conversa com a filha mais velha, ouviu algo que desmontou parte da lógica que vinha seguindo: para ela, aquelas oportunidades profissionais não eram mais importantes do que ter o pai por perto.

Essa história chama atenção justamente porque não envolve um pai que havia abandonado a família ou perdido o interesse pelos filhos.

Era alguém trabalhando muito, conquistando espaço e acreditando que estava aproveitando oportunidades que poderiam beneficiar todos dentro de casa.

É esse detalhe que torna a pergunta desconfortável.

Até que ponto trabalhar pelos filhos continua sendo uma escolha feita por eles também?

Você pode estar trabalhando para oferecer mais aos seus filhos e, sem perceber, cobrando deles um preço que nunca entrou nessa conta: a sua ausência.

Proporcionar e participar não são a mesma coisa

Durante muito tempo, muitos homens aprenderam que ser um bom pai tinha relação direta com sua capacidade de sustentar a casa.

O trabalho ocupava o centro da responsabilidade masculina, enquanto o cuidado diário, a escola, a rotina médica, as conversas e boa parte da vida emocional dos filhos ficavam concentrados nas mães.

Esse modelo mudou bastante, mas algumas de suas marcas continuam presentes. Há pais que sabem exatamente quanto custa a mensalidade da escola e quase nada sobre aquilo que o filho está vivendo dentro dela.

Conhecem as despesas da casa, mas não sabem o nome dos amigos mais próximos. Conseguem explicar detalhadamente seus objetivos profissionais para os próximos três anos, mas talvez tenham dificuldade para dizer o que está deixando o filho inseguro naquela semana.

Nada disso significa que trabalhar ou ganhar dinheiro seja menos importante, porém, o ponto está em reconhecer que provisão financeira ocupa apenas uma parte do papel de um pai, afinal, as crianças também precisam conviver com a pessoa que existe atrás do provedor.

Conhecer seu humor, seus hábitos, suas histórias, seus limites, seu jeito de resolver problemas e até suas falhas e é durante essa convivência comum, que muitas vezes sem nenhum acontecimento especial, uma relação ganha intimidade.

A palestra de Piangers sobre relações familiares e paternidade parte justamente desse lugar. Sua abordagem não apresenta o pai como alguém que precisa acertar sempre, mas como alguém que participa da vida que está ajudando a formar.

A agenda pode revelar prioridades que o discurso prefere esconder

Quase todo pai dirá que a família está entre suas maiores prioridades e é muito provável mesmo que a maioria esteja dizendo a verdade.

O problema é que prioridade não existe apenas naquilo que alguém declara, mas também aparece na distribuição do tempo.

Se uma reunião pode avançar sobre o horário combinado com a família, mas um jantar com os filhos jamais pode avançar sobre uma reunião, existe uma hierarquia implícita.

Quando o trabalho recebe os melhores horários, a melhor concentração e a maior disponibilidade emocional, enquanto a família encontra uma pessoa cansada e permanentemente conectada ao celular, essa diferença acaba sendo percebida dentro de casa.

Não é preciso transformar a agenda numa planilha moral e contar quantas horas alguém ficou perto dos filhos. Existem semanas difíceis, projetos que exigem mais dedicação e momentos em que o trabalho realmente precisa ocupar espaço adicional.

O fato é que o risco aparece quando a exceção vira rotina. Um compromisso profissional urgente pode justificar uma ausência, mas quando praticamente todos os compromissos são tratados como urgentes, a família começa a ocupar sempre a posição secundária, mais fácil de adiar.

Todo mundo consegue dizer que a família vem primeiro. A parte difícil é perceber quantas vezes ela realmente veio primeiro quando duas prioridades disputaram o mesmo horário.

Estar em casa também não garante presença

A conversa ficaria simples demais se presença significasse apenas quantidade de horas dentro da mesma casa. Um pai pode trabalhar remotamente, passar o dia inteiro perto dos filhos e continuar pouco disponível para eles.

Pode jantar olhando o celular, responder uma pergunta sem tirar os olhos da tela e participar de uma brincadeira com a cabeça presa no problema que ficou aberto no computador.

Essa experiência ganhou até nome em pesquisas sobre comportamento familiar: phubbing, quando alguém desvia continuamente a atenção de uma interação presencial para o telefone.

Um estudo com adolescentes analisou especificamente o chamado father phubbing e encontrou associação entre esse comportamento paterno e sintomas depressivos, considerando também a percepção de aceitação pelo pai.

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Não significa que olhar o celular perto dos filhos provoque automaticamente problemas psicológicos. O estudo ajuda a mostrar algo mais razoável: a qualidade da atenção oferecida durante a convivência participa da maneira como a relação é percebida.

Isso coloca uma questão interessante para quem trabalha muito.

Talvez seja insuficiente perguntar apenas quantas horas você passa com seus filhos. Pode ser mais útil observar que versão de você costuma chegar nessas horas.

A pessoa disponível para conversar ou alguém mentalmente em outra reunião?

O pai que consegue acompanhar uma história inteira ou aquele que interrompe várias vezes para responder mensagens?

A criança que procura os pais com naturalidade ou aquela que aprendeu a verificar primeiro se eles estão ocupados?

Pequenos hábitos acabam ensinando às crianças quando podem se aproximar.

Criança não mede amor da mesma maneira que adulto mede esforço

Um adulto conhece todo o raciocínio que existe por trás de seu trabalho.

Ele sabe quanto custa manter uma casa, conhece os boletos, pensa na aposentadoria, calcula os riscos de perder uma oportunidade profissional e entende por que determinadas escolhas financeiras foram feitas.

A criança não possui acesso a essa planilha mental. Ela observa outra coisa:

  • Quem apareceu na apresentação da escola.
  • Quem percebeu que ela estava estranha.
  • Quem ouviu uma história repetida pela quarta vez.
  • Quem conhece aquele amigo sobre quem ela fala todos os dias.
  • Quem sabe por que determinado professor virou assunto naquela semana.

É por isso que a frase “eu faço tudo isso por vocês” pode ser completamente verdadeira e ainda assim não resolver a sensação de distância de um filho.

O pai avalia seu esforço pela quantidade de coisas que conseguiu proporcionar.

O filho pode avaliar a relação pela quantidade de vezes em que conseguiu encontrar o pai emocionalmente disponível.

Nenhum dos dois necessariamente está errado. Eles estão usando medidas diferentes.

Trabalhar muito pode ser uma forma de amor, mas também pode esconder outras coisas

Essa conversa fica ainda mais interessante quando deixamos de tratar excesso de trabalho apenas como exigência financeira.

Nem todo mundo trabalha demais somente porque precisa.

O trabalho também oferece reconhecimento, identidade, desafio, sensação de competência e uma resposta bastante clara sobre desempenho. Existem metas, promoções, entregas, elogios e números capazes de mostrar quando alguém está fazendo algo bem.

A paternidade é menos organizada.

Não existe avaliação trimestral dizendo que você alcançou 87% da meta de pai. Um filho pode continuar irritado mesmo depois de você fazer tudo aquilo que considerava correto. Algumas decisões só mostram consequências anos depois. Há dias em que nenhum esforço parece produzir uma resposta clara.

Para quem construiu boa parte da identidade ao redor da competência profissional, o trabalho pode se tornar um lugar emocionalmente mais previsível do que a própria casa.

Esse é um ponto delicado porque obriga a separar necessidade de preferência.

Às vezes, uma reunião realmente não pode ser adiada.

Em outras, ela apenas oferece uma justificativa socialmente aceita para permanecer num ambiente em que a pessoa se sente mais segura.

A pergunta não precisa ser acusatória. Pode ser feita com curiosidade: quantas horas extras da minha semana são exigidas pelo meu trabalho e quantas são escolhas que eu aprendi a tratar como inevitáveis?

Filhos não precisam de um pai permanentemente disponível

É preciso evitar o outro extremo.

Presença não significa abandonar carreira, cancelar todo compromisso profissional ou viver preso à culpa cada vez que o trabalho exige atenção. Uma criança também precisa aprender que os pais possuem responsabilidades, limites e uma vida que não gira exclusivamente ao redor dela.

O ponto está na previsibilidade da relação. Uma criança pode lidar bem com um pai que viaja se souber que ele volta, cumpre o que promete, mantém contato e participa quando está presente.

Pode compreender uma semana especialmente puxada se aquela situação não for o estado permanente da casa. O problema começa quando o filho precisa disputar atenção sem saber quando conseguirá ganhá-la. Pais presentes não são aqueles que dizem sim para tudo, são aqueles cuja presença possui alguma confiabilidade.

Piangers fala sobre confiança justamente por essa perspectiva. Em uma palestra no TEDx, ele relaciona a confiança entre pais e filhos à proximidade construída ao longo do tempo.

Ela não aparece de uma conversa isolada, nem de uma grande declaração de amor feita uma vez por ano. Surge de pequenas experiências acumuladas nas quais o filho descobre que pode contar com aquela pessoa.

Presença não significa estar disponível o tempo inteiro. Significa que seu filho não precisa viver tentando descobrir quando finalmente haverá espaço para ele.

O trabalho também precisa entrar nessa conversa

Falar de pais presentes apenas no âmbito individual deixa uma parte importante do problema de fora.

Há empresas que celebram o Dia dos Pais nas redes sociais e, durante o restante do ano, continuam tratando envolvimento familiar como sinal de menor comprometimento profissional.

O problema aparece em situações bastante comuns. Um pai precisa acompanhar o filho ao médico, participar de uma reunião na escola, sair um pouco mais cedo porque a criança ficou doente e deseja usar integralmente sua licença.

E se ele recusa uma viagem porque existe um compromisso familiar importante?

A reação da liderança diz mais sobre a cultura da empresa do que qualquer postagem de homenagem.

Se mulheres continuam sendo automaticamente acionadas quando surge uma necessidade dos filhos, enquanto homens precisam justificar fortemente cada ausência ligada ao cuidado, a empresa ajuda a manter exatamente o modelo que depois diz querer superar.

Esse tema também se conecta a gestão de pessoas e cultura organizacional. Não porque empresas devam administrar a vida privada dos funcionários, mas porque políticas e comportamentos internos influenciam quem consegue assumir responsabilidades familiares sem colocar a própria carreira em dúvida.

A pergunta vale especialmente para líderes homens. Se um diretor nunca demonstra que acompanha a vida dos filhos, nunca usa direitos ligados à paternidade e permanece disponível em qualquer horário, sua equipe pode entender que esse é o modelo necessário para crescer ali dentro. Cultura também se aprende observando quem é promovido.

Talvez o maior luxo que o trabalho compra seja justamente o tempo que ele consome

Existe uma ironia difícil de ignorar na busca por sucesso financeiro.

Muita gente trabalha durante anos para conquistar liberdade. Quer ter dinheiro suficiente para escolher melhor onde morar, como viajar, o que oferecer aos filhos e como organizar a própria vida.

Só que é possível chegar a determinado nível de conforto e continuar vivendo sem liberdade de tempo.

A renda aumentou e a responsabilidade aumentou junto. O cargo melhorou mas as reuniões se multiplicaram.

A família passou a ter acesso a mais coisas, mas continua convivendo com alguém que está permanentemente ocupado.

Isso não significa que ambição seja um erro. Significa apenas que crescimento profissional deveria continuar respondendo à pergunta que o justificava no início.

Se a intenção era melhorar a vida da família, em algum momento é razoável verificar como essa família está vivendo.

Os filhos também educam os pais

Talvez uma das partes mais interessantes da história contada por Piangers seja o fato de a correção ter vindo da filha.

Um adulto com carreira estabelecida, experiência, livros publicados e reconhecimento público precisou ouvir uma criança dizer algo que ele não estava conseguindo enxergar sozinho.

Existe muita coisa aí.

Pais passam anos ensinando limites, comportamento, responsabilidade e valores. Só que uma relação familiar saudável também oferece espaço para o movimento contrário. Filhos percebem contradições, fazem perguntas inconvenientes e às vezes revelam exatamente aquilo que o adulto vinha tentando racionalizar.

Ouvir isso exige uma postura diferente da autoridade tradicional.

A resposta poderia ter sido explicar todas as razões pelas quais as viagens eram necessárias.

Piangers conta que a conversa o fez rever escolhas.

Esse talvez seja um bom critério para qualquer relação: quando alguém que você ama diz que sente sua falta, a primeira tarefa não deveria ser provar matematicamente que vocês passam tempo suficiente juntos.

Talvez seja entender de onde aquela sensação veio.

A infância não vai esperar a fase complicada acabar

Quase toda pessoa muito ocupada possui uma data imaginária na qual a vida vai desacelerar:

  • Depois da entrega.
  • Posteriormente àquela promoção tão desejada.
  • Assim que ocorrer o fechamento do ano.
  • No dia que a empresa crescer.
  • Assim que as dívidas acabarem.
  • Depois que os filhos estiverem maiores.

O problema está justamente na última frase. Eles estarão maiores, é isso que o tempo faz.

A infância não exige que alguém abandone a vida profissional para acompanhá-la. Ela apenas continua acontecendo enquanto os adultos decidem onde colocar atenção.

Esse é o desconforto presente na história de Marcos Piangers. Um pai pode amar profundamente seus filhos, trabalhar pensando neles e ainda precisar revisar quanto espaço consegue reservar para simplesmente viver perto deles.

Talvez o equilíbrio perfeito não exista, existem escolhas repetidas e é nelas que a relação vai sendo construída.

Seus filhos podem usufruir durante anos do dinheiro que você ganha. A infância em que eles queriam sua companhia termina muito antes.

No fim, talvez a pergunta não seja se alguém trabalha demais ou de menos. Famílias vivem situações financeiras, profissionais e emocionais muito diferentes para caber numa regra única.

A pergunta mais útil é verificar se aquilo que você diz estar construindo para seus filhos ainda inclui espaço suficiente para construir alguma coisa com eles.

Porque proporcionar e participar podem caminhar juntos, mas isso raramente acontece por acidente.

Exige escolhas.

E algumas delas precisam ser feitas antes que a agenda finalmente fique tranquila, porque talvez esse dia nunca chegue.

Perguntas frequentes

O que Marcos Piangers fala sobre paternidade?

Marcos Piangers aborda paternidade a partir de presença, afeto, confiança e participação na vida cotidiana dos filhos. Seu trabalho também questiona modelos antigos em que a responsabilidade masculina ficava concentrada quase exclusivamente no papel de provedor.

Trabalhar muito prejudica necessariamente a relação com os filhos?

Não. O problema não está apenas na quantidade de trabalho, mas na maneira como ele interfere na convivência, na disponibilidade emocional e na previsibilidade da presença dos pais.

Presença paterna influencia o desenvolvimento dos filhos?

Pesquisas sobre envolvimento paterno encontram associações entre participação positiva dos pais e aspectos sociais, emocionais, comportamentais e cognitivos do desenvolvimento infantil.

O que é father phubbing?

É uma expressão usada em pesquisas para descrever situações em que o pai direciona repetidamente a atenção ao celular durante interações com os filhos. Estudos têm investigado relações entre esse comportamento e diferentes aspectos do bem-estar de crianças e adolescentes.

Marcos Piangers realiza palestras corporativas?

Sim. O perfil de Marcos Piangers apresenta palestras sobre relações familiares, paternidade, futuro, criatividade, comportamento e temas ligados ao ambiente profissional.

Quer levar Marcos Piangers para o seu próximo evento?

Marcos Piangers

O que acontece quando trabalho, família, presença e escolhas deixam de ser assuntos separados?

Marcos Piangers leva para empresas e eventos histórias sobre paternidade, relações humanas, comportamento, criatividade e as escolhas que fazemos entre aquilo que ocupa nosso tempo e aquilo que realmente queremos preservar.

Conheça Marcos Piangers

Marcos Piangers

Marcos Piangers é um fenômeno da internet e do universo das palestras e eventos.

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