Em 2006, a médica e aventureira ouviu que deveria procurar a formação de comissárias de bordo. Duas décadas depois, sua história ajuda a entender por que as mulheres ainda são minoria em determinadas profissões.
Karina Oliani conta que, em 2006, ao entrar no curso de piloto de helicóptero, ouviu que estava na sala errada. Quem a abordou presumiu que ela procurava a formação de comissárias de bordo, embora estivesse exatamente onde pretendia estar. O episódio poderia ter terminado como um comentário inconveniente, mas revela uma realidade que continua presente no mercado de trabalho: a associação automática de determinadas profissões ao gênero de quem deseja exercê-las.
A história foi recuperada pela médica, exploradora e palestrante durante sua participação no podcast Valores no Tempo, da Tori, em uma conversa sobre sua trajetória e a presença feminina em ambientes tradicionalmente ocupados por homens.
Karina já era uma profissional acostumada a buscar caminhos pouco convencionais. Ainda assim, a situação na escola de aviação expôs uma resistência que não dependia de sua formação, de sua experiência ou de sua disposição para aprender. Naquele primeiro contato, a expectativa sobre o lugar que uma mulher deveria ocupar veio antes do reconhecimento de sua escolha profissional.
A cena ganha outra dimensão quando confrontada com os dados atuais da aviação brasileira.
A mulher que entrou na sala certa e precisou explicar por que estava ali
O comentário que Karina recebeu durante a formação para pilotar helicópteros carregava uma distinção aparentemente naturalizada. Esperava-se encontrar uma mulher interessada em trabalhar como comissária de bordo, enquanto a formação de pilotos era associada aos homens.
É importante compreender que o problema não estava na profissão de comissária, que exige qualificação e responsabilidades próprias. O preconceito apareceu na suposição de que uma mulher presente naquele ambiente deveria estar se preparando para determinada função, sem que ninguém tivesse perguntado quais eram seus objetivos.
Karina não havia se enganado de sala. Durante a entrevista, relembrou que respondeu à abordagem deixando claro que estava no curso pretendido. Sua reação foi breve, mas a lembrança permaneceu suficientemente marcante para ser recuperada anos depois, em uma conversa sobre as oportunidades profissionais das mulheres.
O PONTO CENTRAL
“Não, então eu tô na sala certa.”
A resposta de Karina Oliani ao ser confundida com uma candidata ao curso de comissárias de bordo resume um episódio de sua formação como pilota de helicóptero. Ela sabia qual profissão queria exercer, mas encontrou uma expectativa diferente sobre o lugar que deveria ocupar.
Declaração literal de Karina Oliani ao
podcast Valores no Tempo.
A palestrante também contou que aquela situação estava entre os episódios menos graves de uma coleção de comentários recebidos ao longo de sua trajetória. Em diferentes ocasiões, ouviu que determinadas atividades não seriam apropriadas para ela ou que não conseguiria realizá-las.
O relato ajuda a compreender como julgamentos aparentemente isolados podem influenciar a experiência de pessoas que ingressam em profissões nas quais ainda são minoritárias. Antes mesmo de demonstrar o próprio conhecimento, algumas precisam administrar expectativas que nada dizem sobre sua capacidade de exercer a função.
Vinte anos depois, apenas 3% dos pilotos brasileiros são mulheres
Se o episódio de Karina aconteceu em 2006, os números de 2026 mostram que a presença feminina no comando de aeronaves continua reduzida.
Em levantamento divulgado em 31 de março de 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos informou que as mulheres representam apenas 3% dos pilotos no Brasil. Na manutenção aeronáutica, a participação feminina também corresponde a 3%, enquanto, entre os comissários de voo, elas são 66% dos profissionais.
A diferença entre essas ocupações oferece um contexto especialmente significativo para a história de Karina. Não se trata de estabelecer uma hierarquia entre funções, mas de observar como homens e mulheres estão distribuídos entre atividades que exigem formações distintas, responsabilidades específicas e possibilidades diferentes de progressão profissional.
Os dados atuais não permitem determinar como era a composição da turma de Karina em 2006, tampouco demonstram, isoladamente, as causas da desigualdade no setor. Eles revelam, porém, que o acesso feminino à pilotagem continua sendo um desafio importante para a aviação brasileira.
A própria Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) reconhece essa necessidade em seu programa Asas para Todos, que reúne iniciativas de inclusão, diversidade e formação profissional, com uma frente específica dedicada às mulheres na aviação.
Em 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos também divulgou uma iniciativa de formação de pilotos que selecionou 20 participantes, destinando metade das vagas às mulheres. O programa previa capacitação teórica, aulas de inglês e 183 horas de voo, com conclusão programada para dezembro daquele ano.
São iniciativas importantes porque tratam a participação feminina como uma questão de acesso à qualificação e às oportunidades profissionais, e não apenas como um assunto de conscientização.
Uma reflexão da própria Karina Oliani
“Eu acho que as mulheres ainda estão conquistando os seus lugares.”
O que a trajetória de Karina Oliani revela sobre os espaços tradicionalmente masculinos
A aviação representa apenas uma parte da carreira de Karina. Sua trajetória também reúne medicina de emergência, atuação em áreas remotas, produção audiovisual e expedições em ambientes extremos.
Como montanhista, ela se tornou a primeira brasileira a alcançar o cume do K2, em 2019. Antes disso, havia conquistado o Everest pelas faces sul e norte, tornando-se a primeira mulher sul-americana a chegar ao topo da montanha pelos dois lados.
Esses feitos são amplamente conhecidos, mas a lembrança da escola de aviação permite observar sua trajetória por outro ângulo. O interesse está nas experiências profissionais anteriores ao reconhecimento público, quando suas escolhas nem sempre correspondiam às expectativas das pessoas ao redor.
Na entrevista à Tori, Karina explicou que situações desafiadoras costumam aumentar sua determinação. Trata-se de uma característica que ela reconhece em sua personalidade e que ajuda a entender sua disposição para ingressar em diferentes áreas.
Entretanto, seu comportamento individual não pode ser tratado como solução universal para as barreiras enfrentadas pelas mulheres. Nem toda profissional terá interesse em confrontar comentários preconceituosos, e nenhuma deveria precisar provar continuamente que merece ocupar uma posição para a qual está qualificada.
Essa distinção é especialmente relevante para empresas. A história de Karina demonstra como uma profissional pode responder a uma expectativa limitadora, mas também convida a observar o ambiente que produziu aquela expectativa.
Uma organização que deseja aproveitar melhor seus talentos precisa prestar atenção aos critérios utilizados para reconhecer competências, distribuir oportunidades e identificar pessoas com potencial para assumir novas responsabilidades.
ASSESSORIA PALESTRAS DE SUCESSO
Sua trajetória profissional pode ter muito a contribuir com outras pessoas.
Experiências como a de Karina Oliani mostram a força de histórias reais quando são apresentadas com contexto, conhecimento e relevância. A Assessoria Palestras de Sucesso trabalha para valorizar profissionais que desejam fortalecer seu posicionamento no mercado de palestras e ampliar suas oportunidades.
Quando o preconceito aparece antes da avaliação profissional
Em processos seletivos, reuniões de liderança e decisões sobre promoções, avaliações podem ser influenciadas por ideias anteriores sobre quem parece adequado para determinada atividade.
Uma profissional pode reunir os requisitos de uma função técnica e, ainda assim, encontrar resistência porque não corresponde ao perfil historicamente associado àquele cargo. O mesmo mecanismo pode aparecer quando mulheres precisam demonstrar repetidamente sua autoridade diante de equipes ou quando suas possibilidades de crescimento são avaliadas a partir de expectativas relacionadas à vida familiar.
Nesse cenário, as iniciativas de diversidade e gestão de pessoas ganham relevância quando conseguem alterar procedimentos concretos dentro das organizações.
Os Princípios de Empoderamento das Mulheres, desenvolvidos pela ONU Mulheres e pelo Pacto Global da ONU, orientam empresas a promover igualdade de oportunidades, práticas de não discriminação, capacitação profissional e acompanhamento dos resultados alcançados.
A aplicação desses princípios exige observar o funcionamento cotidiano da empresa. Isso inclui examinar critérios de contratação e promoção, identificar possíveis diferenças de acesso a projetos estratégicos e oferecer condições para que profissionais de diferentes perfis sejam avaliados por competências pertinentes às suas funções.
Também envolve preparar as lideranças para reconhecer julgamentos automáticos. Uma empresa pode declarar seu compromisso com a igualdade e continuar reproduzindo desigualdades quando decisões importantes dependem exclusivamente de impressões pessoais.
É nesse ponto que a experiência relatada por Karina encontra uma aplicação concreta na liderança empresarial. O comentário feito na escola de aviação surgiu antes de qualquer avaliação sobre sua capacidade de pilotar. O mesmo raciocínio, quando reproduzido em ambientes corporativos, pode restringir oportunidades profissionais.
O lugar que Karina ocupa hoje também importa para outras mulheres
A trajetória de Karina Oliani permite observar o efeito da presença feminina em campos nos quais as mulheres ainda são pouco representadas.
Ao construir uma carreira que reúne medicina, pilotagem, montanhismo e comunicação, ela se tornou uma referência pública de atuação profissional em diferentes ambientes. Suas conquistas não eliminam as dificuldades enfrentadas por outras mulheres, mas oferecem exemplos concretos de caminhos que podem ser percorridos.
Isso tem importância particular para as gerações que estão escolhendo suas profissões. Conhecer mulheres que trabalham na aviação, na pesquisa científica, na tecnologia e em outras áreas técnicas amplia o repertório de possibilidades disponíveis a quem ainda está decidindo seu futuro.
Para as empresas, o desafio é semelhante: tornar visíveis diferentes trajetórias profissionais e assegurar que o desenvolvimento de talentos não dependa de uma imagem prévia de como um líder, especialista ou gestor deveria ser.
Nesse contexto, a cultura organizacional influencia diretamente a maneira como as pessoas percebem suas oportunidades. Quando profissionais observam colegas com trajetórias diversas assumindo responsabilidades relevantes, encontram referências concretas para projetar o próprio crescimento.
A presença feminina em determinadas funções também precisa ser acompanhada de condições adequadas para permanência, desenvolvimento e progressão na carreira. A representatividade é importante, mas seu impacto tende a ser limitado quando não existem práticas consistentes de reconhecimento profissional.
O que ficou daquela sala de aula
Ao recuperar a história de 2006, Karina Oliani apresentou um episódio de sua formação que raramente recebe a mesma atenção dedicada aos seus recordes internacionais. Naquele momento, ela ainda estava construindo uma parte importante de sua carreira e encontrou uma expectativa que não correspondia ao caminho escolhido.
Sua resposta foi suficiente para esclarecer a situação. A permanência do episódio na memória, entretanto, ajuda a mostrar como comentários aparentemente pequenos podem representar comportamentos disseminados em determinados ambientes profissionais.
Duas décadas depois, os dados oficiais da aviação brasileira indicam que ainda existe uma distância significativa entre a participação de homens e mulheres na pilotagem. O avanço depende de políticas de formação, acesso às oportunidades e ambientes profissionais capazes de reconhecer talentos sem pressupor quais funções cada pessoa deveria ocupar.
Karina seguiu sua trajetória e construiu uma carreira marcada por experiências pouco comuns. A história daquela sala de aula acrescenta uma dimensão especialmente relevante ao seu percurso: antes de conquistar reconhecimento por atividades extraordinárias, ela também precisou lidar com uma situação bastante conhecida por mulheres que ingressam em profissões tradicionalmente masculinas.
E talvez seja justamente por sua simplicidade que esse episódio mereça ser lembrado. A capacidade profissional de Karina não mudou quando ela explicou por que estava ali. O que precisou mudar, naquele instante, foi a expectativa de quem acreditava que ela deveria estar em outro lugar.
Perguntas frequentes sobre Karina Oliani e sua trajetória na aviação
Karina Oliani é piloto de helicóptero?
Sim. A médica e exploradora relata sua formação como pilota de helicóptero em entrevista ao podcast Valores no Tempo, da Tori, ao recordar uma situação ocorrida em 2006.
O que aconteceu com Karina Oliani na escola de aviação?
Segundo seu próprio relato, ao entrar no curso de pilotagem, Karina ouviu que estava na sala errada porque presumiram que ela procurava a formação de comissárias de bordo. Ela esclareceu que estava no curso correto.
Quantas mulheres são pilotos no Brasil?
Segundo dados divulgados pelo Ministério de Portos e Aeroportos em março de 2026, as mulheres representam aproximadamente 3% dos pilotos brasileiros.
Quais são as principais áreas de atuação de Karina Oliani?
Karina Oliani atua como médica, exploradora, montanhista, pilota de helicóptero, comunicadora e palestrante. Sua carreira inclui medicina em áreas remotas, produção audiovisual e expedições internacionais.
Quais temas Karina Oliani aborda em suas palestras?
De acordo com seu perfil na Palestras de Sucesso, sua palestra Qual é o seu Everest? aborda pioneirismo, planejamento estratégico, trabalho em equipe, comprometimento, gerenciamento de riscos, coragem e perseverança. Sua trajetória também oferece oportunidades para reflexões sobre protagonismo feminino e desenvolvimento profissional.
KARINA OLIANI NA PALESTRAS DE SUCESSO
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Médica, exploradora e palestrante, Karina Oliani compartilha experiências reais em sua palestra “Qual é o seu Everest?”, conectando pioneirismo, planejamento estratégico, trabalho em equipe, gerenciamento de riscos e comprometimento.
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