Num ambiente que recompensa respostas rápidas, admitir que ainda faltam informações pode ser uma demonstração de inteligência, não de fraqueza
Com Gabriela Prioli
Existe uma pressão curiosa sobre quem ocupa qualquer posição de liderança, influência ou exposição profissional: parece que sempre é necessário ter uma resposta pronta. Surge um assunto novo, acontece alguma coisa no mercado, aparece uma crise na empresa ou uma discussão começa numa reunião e imediatamente alguém pergunta: “qual é a sua opinião?”.
A resposta mais responsável, em alguns casos, poderia ser simplesmente: ainda não tenho uma.
Gabriela Prioli já tratou dessa questão de maneira bastante direta. Em entrevista ao UOL, ao falar sobre posicionamento e debate público, afirmou que não é necessário se posicionar sobre todos os assuntos nem fazer isso de maneira imediata.
A frase combina com um aspecto recorrente de sua atuação, que a própria Palestras de Sucesso destaca em seu perfil: raciocínio, argumentação, dados e preocupação em não reduzir discussões complexas ao terreno do achismo.
A ideia parece simples, mas vai contra uma cultura que frequentemente confunde rapidez com competência.
A primeira resposta não precisa ser a resposta definitiva
Há situações profissionais em que velocidade é indispensável. Um acidente, uma emergência ou um problema operacional não podem esperar uma semana de reflexão. O erro está em transportar essa mesma urgência para qualquer tipo de decisão.
Um gestor recebe uma reclamação e já identifica o culpado. Um vendedor ouve uma objeção e imediatamente conclui que o problema é preço. Uma liderança conhece parcialmente um conflito e decide quem está certo antes de ouvir as duas partes. Nas redes sociais, o mecanismo fica ainda mais explícito: um assunto surge pela manhã e, poucas horas depois, parece estranho que alguém ainda esteja tentando entendê-lo.
Suspender uma conclusão nesses casos não significa fugir da responsabilidade. Significa reconhecer que uma opinião construída com pouca informação continua sendo uma opinião construída com pouca informação, independentemente da convicção de quem a pronuncia.
É nesse ponto que o tema se aproxima da chamada humildade intelectual. Uma pesquisa publicada no Personality and Social Psychology Bulletin define essa característica pela capacidade de reconhecer que as próprias crenças podem estar erradas. Nos estudos realizados pelos pesquisadores, maior humildade intelectual apareceu associada a abertura, curiosidade, tolerância à ambiguidade e maior sensibilidade à qualidade dos argumentos apresentados.
Não é pensar menos. É aceitar que pensar bem inclui revisar o próprio pensamento.
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Ter convicção não exige fingir certeza
Existe uma diferença importante entre alguém que não consegue formar uma posição e alguém que se recusa a formar uma posição antes de conhecer suficientemente o assunto.
A segunda atitude pode ser bastante racional.
Gabriela Prioli exemplificou isso ao falar sobre debates. Na mesma entrevista ao UOL, ela propôs uma pergunta anterior à própria argumentação: o objetivo é ganhar a discussão ou encontrar caminhos de consenso? Para ela, um debate sério exige regras, lealdade aos fatos e disposição para não recorrer a dados falsos ou ataques pessoais.
Esse raciocínio serve muito bem ao ambiente corporativo. Quando alguém entra numa conversa decidido a provar que já possui a resposta correta, novas informações passam a ser tratadas como obstáculos. O esforço deixa de estar concentrado em compreender o problema e começa a ser usado para proteger a posição assumida.
É por isso que pensamento crítico deveria envolver também a capacidade de dizer “não sei”, “preciso verificar” ou “mudei de opinião depois de conhecer esses dados”. Essas frases não diminuem necessariamente a autoridade de alguém. Dependendo do contexto, podem aumentar sua credibilidade.
Mudar de ideia não deveria ser tratado automaticamente como incoerência
Essa talvez seja uma consequência especialmente ruim da obrigação de parecer sempre certo. Quanto mais publicamente uma pessoa defende determinada opinião, maior pode ser o custo emocional de abandoná-la depois.
Passamos então a premiar uma forma estranha de coerência: alguém continua defendendo uma conclusão antiga mesmo depois que surgiram informações melhores, simplesmente porque mudar seria interpretado como fraqueza.
A própria pesquisa sobre humildade intelectual encontrou algo interessante nesse sentido. Participantes com níveis maiores dessa característica eram menos propensos a interpretar negativamente políticos que mudavam de posição e mais atentos à força dos argumentos, em vez de reagirem apenas a quem estava apresentando determinada ideia.
Isso não significa elogiar qualquer mudança oportunista. Significa reconhecer que existe uma diferença entre mudar porque convém e mudar porque a realidade trouxe informações que a posição anterior não contemplava.
Profissionais experientes deveriam ter repertório suficiente não apenas para defender ideias, mas também para abandonar algumas delas.
O problema não é ter opinião. É transformar opinião em identidade
Gabriela também costuma resistir a rótulos porque eles podem fazer com que as pessoas passem a interpretar argumentos a partir da categoria atribuída a quem fala. Em sua entrevista, explicou que prefere se posicionar sem retirar a legitimidade de quem pensa diferente.
No trabalho, esse mecanismo aparece com outras roupas. Alguém vira “o conservador”, “a pessoa da inovação”, “o financeiro que sempre diz não”, “o comercial que só pensa em vender”. Depois disso, o grupo começa a prever o argumento antes mesmo de ouvi-lo.
Uma discussão saudável exige alguma liberdade para surpreender a própria caricatura.
Quem lidera precisa ser capaz de dizer que ainda não sabe. Quem possui experiência precisa continuar fazendo perguntas. Quem estava certo ontem precisa admitir a possibilidade de os dados de hoje apontarem para outro caminho.
Conclusão: pensar também exige saber esperar
Vivemos num ambiente em que opinião circula rápido, mas velocidade não melhora automaticamente a qualidade do raciocínio. Algumas decisões precisam ser imediatas; outras merecem justamente o contrário.
A provocação de Gabriela Prioli não é um convite à omissão. É um lembrete de que posicionamento responsável não deveria ser medido apenas pela rapidez com que alguém escolhe um lado.
Em determinados momentos, a frase profissionalmente mais madura da sala pode não ser uma resposta brilhante. Pode ser algo muito mais simples:
“Ainda não sei o suficiente para responder isso direito.”
E só depois, quando houver argumento, informação e reflexão suficientes, vir a opinião.
Perguntas frequentes
É ruim dizer “não sei” no ambiente profissional?
Não necessariamente. Quando a informação ainda é insuficiente, reconhecer essa limitação pode evitar decisões precipitadas. O importante é que o “não sei” seja acompanhado de disposição para investigar e chegar a uma resposta.
O que é humildade intelectual?
É a capacidade de reconhecer que nossas próprias crenças e conclusões podem estar erradas. Pesquisas sobre humildade intelectual relacionam essa característica a maior abertura, curiosidade e atenção à qualidade dos argumentos.
Mudar de opinião é falta de coerência?
Depende do motivo. Mudar para obter vantagem é diferente de revisar uma posição porque surgiram novas evidências ou argumentos melhores. A capacidade de atualização faz parte do pensamento crítico.
Gabriela Prioli realiza palestras para empresas?
Sim. O perfil de Gabriela Prioli na Palestras de Sucesso apresenta temas ligados a comunicação, estratégias de raciocínio, ética, persuasão, educação, razão e emoção, entre outros.
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