Você ainda sabe aprender depois de virar especialista? O que Karina Oliani ensina sobre aprendizagem contínua

A aprendizagem contínua ganhou outro significado em um mercado no qual tecnologias, funções, ferramentas e maneiras de trabalhar mudam em intervalos cada vez menores.

Continuar estudando deixou de ser apenas uma escolha ligada ao desenvolvimento pessoal e passou a interferir diretamente na capacidade de um profissional acompanhar mudanças, assumir novas responsabilidades e encontrar soluções para problemas que não existiam quando sua carreira começou.

Há, porém, uma contradição interessante nesse processo. Quanto mais experiência alguém acumula, mais desconfortável pode se tornar admitir que precisa voltar a aprender.

Depois de anos construindo autoridade em determinada área, ocupando posições importantes e sendo reconhecido por aquilo que sabe fazer, retornar à condição de iniciante exige disposição para fazer perguntas, cometer erros básicos e conviver durante algum tempo com um desempenho inferior ao que já consegue entregar em sua especialidade.

A trajetória de Karina Oliani ajuda a discutir esse desafio porque dificilmente cabe dentro de uma única profissão.

Médica especializada em Wilderness Medicine, precursora da Medicina de Aventura no Brasil, fundadora da Associação Brasileira de Medicina de Áreas Remotas e Esportes de Aventura, instrutora de mergulho, exploradora, piloto de helicóptero, apresentadora, produtora e diretora audiovisual, ela construiu uma carreira na qual diferentes competências passaram a se complementar ao longo dos anos.

Seu site oficial também registra mais de 5 mil mergulhos e experiências realizadas em mais de 125 países.

A questão interessante para o ambiente corporativo não está na quantidade de atividades reunidas em um currículo. Está em observar como conhecimentos adquiridos em momentos diferentes podem aumentar a capacidade de interpretar situações, conduzir projetos e trabalhar diante de cenários novos.

Isso leva a uma pergunta que profissionais experientes talvez precisem fazer com mais frequência: quanto daquilo que você domina hoje será suficiente para realizar o trabalho que o mercado exigirá de você daqui a alguns anos?

Aprendizagem contínua deixou de ser assunto apenas de quem está começando

Durante muito tempo, a carreira profissional foi imaginada como uma sequência relativamente previsível. A pessoa estudava, entrava em uma área, ganhava experiência, tornava-se especialista e avançava até posições de maior responsabilidade.

Esse modelo ainda existe, mas convive com um ambiente em que novas competências entram rapidamente na rotina de profissões consolidadas.

O Future of Jobs Report 2025, publicado pelo World Economic Forum, estima que 39% das competências existentes deverão mudar ou perder relevância entre 2025 e 2030. Curiosidade e aprendizagem ao longo da vida aparecem entre as capacidades consideradas cada vez mais importantes pelos empregadores.

Consulte o Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum

Essa mudança não afeta somente jovens profissionais tentando conquistar a primeira oportunidade. Ela também alcança pessoas que já possuem décadas de mercado, cargos de liderança ou reconhecimento técnico.

A senioridade continua sendo uma vantagem quando oferece repertório para interpretar situações complexas. O problema aparece quando a experiência adquirida passa a funcionar como argumento para permanecer distante de tudo aquilo que ainda não se conhece.

Karina oferece um contraponto interessante porque sua carreira foi incorporando áreas que exigiam aprendizado específico, sem que uma nova competência precisasse eliminar aquilo que havia sido construído anteriormente.

O que Karina Oliani construiu foi uma combinação de competências

Medicina, exploração de ambientes remotos e produção audiovisual podem parecer territórios profissionais muito distantes quando observados separadamente. Na trajetória de Karina, porém, essas áreas começaram a se encontrar.

O conhecimento médico encontra aplicação direta em expedições realizadas longe de estruturas convencionais de atendimento. A experiência acumulada nesses ambientes cria histórias e situações que podem ser documentadas. O conhecimento audiovisual permite transformar parte desse repertório em produções capazes de chegar a públicos maiores. A prática diante das câmeras também favorece a comunicação utilizada posteriormente em palestras, entrevistas e eventos.

Esse processo mostra uma maneira diferente de pensar desenvolvimento profissional.

Aprender uma competência nova pode aumentar o valor das anteriores.

Um especialista técnico que desenvolve capacidade de comunicação passa a explicar melhor aquilo que domina. Um profissional de vendas que aprende análise de dados consegue avaliar seu desempenho com maior precisão.

Um gestor que compreende novas tecnologias consegue participar de decisões que antes ficariam restritas a departamentos especializados. Um executivo experiente que aprende a ensinar pode transformar anos de conhecimento acumulado em formação de outras pessoas.

Na Pitaya Filmes, empresa fundada por Karina em 2009, essa combinação aparece de maneira clara. O site da produtora informa que ela atua como produtora executiva e diretora dos principais projetos, além de participar diretamente de atividades como filmagem, fotografia e operação de drones.

Conheça a equipe da Pitaya Filmes

Karina não abandonou sua formação médica para atuar no audiovisual. As novas competências aumentaram as formas pelas quais sua experiência poderia ser utilizada.

Tornar-se especialista pode criar resistência ao desconforto de aprender novamente

Quando alguém está no início da carreira, existe certa permissão social para perguntar e errar. Colegas mais experientes esperam dúvidas, os primeiros projetos funcionam como espaço de formação e a necessidade de orientação não costuma ameaçar a identidade profissional.

Depois de anos sendo reconhecido como referência em determinado assunto, essa condição muda.

Um profissional experiente tende a trabalhar em ambientes nos quais conhece os códigos, domina o vocabulário e consegue antecipar muitos dos problemas que surgirão. Ao começar a desenvolver uma competência distante de seu repertório habitual, parte dessa segurança desaparece temporariamente.

Essa sensação pode fazer com que pessoas muito qualificadas permaneçam concentradas apenas nas áreas em que já conseguem demonstrar excelência.

O desafio da aprendizagem contínua está justamente em aceitar que começar algo novo não reduz o valor do conhecimento acumulado. Significa apenas reconhecer que experiência numa área não produz automaticamente domínio em outra.

A trajetória de Karina tem interesse corporativo exatamente por isso. Medicina, mergulho, pilotagem e produção audiovisual exigem conhecimentos técnicos muito diferentes. O sucesso obtido em uma dessas áreas não elimina a necessidade de estudar, praticar e receber orientação ao entrar em outra.

Essa disposição para aprender depois de já possuir reconhecimento profissional talvez seja uma das competências menos discutidas quando empresas falam sobre desenvolvimento.

Carreira multidisciplinar não significa trocar de profissão constantemente

Outro equívoco possível está em associar repertório amplo à falta de especialização.

Construir uma carreira multidisciplinar não exige abandonar aquilo que já foi desenvolvido sempre que surge uma nova área de interesse.

O ponto está na capacidade de identificar conhecimentos que possam trabalhar em conjunto.

Essa lógica ganhou importância à medida que novas tecnologias passaram a atingir profissões que antes tinham pouco contato com determinadas ferramentas. Em 2026, levantamentos do LinkedIn mostraram crescimento da demanda por competências ligadas à inteligência artificial também em funções relacionadas a marketing, projetos, design, administração e produção de conteúdo.

Veja os dados do LinkedIn sobre competências em crescimento

Um profissional de marketing não precisa se tornar engenheiro de software para compreender como ferramentas de inteligência artificial modificam sua área. Um médico não precisa abandonar a medicina ao aprender comunicação. Um especialista financeiro pode desenvolver habilidades de liderança sem deixar de utilizar sua formação original.

A nova competência passa a ampliar o campo de atuação da anterior.

Para empresas, essa perspectiva também muda a maneira de pensar treinamento. Desenvolver pessoas deixa de significar apenas aprofundar aquilo que elas já sabem e passa a incluir conhecimentos complementares capazes de aumentar sua capacidade de resolver problemas.

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Aprender em áreas diferentes aumenta as maneiras de interpretar um problema

Especialistas enxergam detalhes que pessoas sem o mesmo conhecimento dificilmente perceberiam. Essa profundidade tem enorme valor, principalmente em situações que exigem domínio técnico.

Ao mesmo tempo, profissionais que tiveram contato consistente com diferentes disciplinas podem desenvolver uma vantagem complementar: passam a observar o mesmo problema por perspectivas distintas.

Karina pode analisar uma expedição considerando segurança médica, condições ambientais, deslocamento, logística e necessidades de uma produção audiovisual. Quando esses conhecimentos pertencem à mesma pessoa, as decisões deixam de depender exclusivamente de uma única lente profissional.

Essa capacidade aparece também em sua atuação recente.

Em 2026, Karina participou do Rio2C como sócia-fundadora da Pitaya Filmes em uma conversa intitulada “Lidar com o Imprevisível: Desafios na Produção Audiovisual em Situações Extremas”. A apresentação do evento destacou justamente uma trajetória que atravessa medicina, aventura, exploração e produção de conteúdo.

Veja a participação de Karina Oliani no Rio2C

Esse cruzamento de experiências tem aplicação direta dentro das empresas.

Problemas atuais raramente respeitam os limites exatos de um departamento. Uma questão comercial pode envolver tecnologia, atendimento e análise de dados. Uma decisão de gestão pode exigir conhecimento financeiro e compreensão de comportamento. Um projeto de inovação pode fracassar porque pessoas tecnicamente competentes não conseguiram traduzir suas ideias para outras áreas.

Quanto maior a capacidade de conectar repertórios, maior tende a ser a quantidade de caminhos disponíveis para analisar uma situação.

Existe um período em que aprender algo novo reduz temporariamente sua eficiência

Uma das partes menos atraentes da aprendizagem contínua acontece justamente no começo.

O profissional experiente está acostumado a resolver problemas com velocidade, reconhecer padrões e antecipar consequências. Quando entra em uma nova área, essa eficiência diminui durante algum tempo porque ainda não existe repertório suficiente para tomar decisões com a mesma segurança.

Esse estágio pode ser particularmente desconfortável para quem ocupa cargos elevados.

A pessoa que costuma orientar passa a precisar de orientação. O especialista acostumado a responder precisa voltar a perguntar. Quem já desenvolveu uma reputação de competência encontra situações nas quais cometerá erros básicos novamente.

Aceitar essa fase exige uma relação saudável com a própria senioridade.

Aprender uma nova competência não apaga aquilo que alguém já sabe. Também não transforma anos de experiência em algo menor. O que acontece é uma ampliação de repertório que precisa de tempo para amadurecer.

Karina passou por esse processo inúmeras vezes ao entrar em disciplinas que exigiam treinamento específico. Essa característica de sua carreira oferece uma reflexão importante para profissionais que deixam de explorar novos conhecimentos porque não querem voltar a experimentar a insegurança natural do aprendizado.

Qual competência aumentaria o valor daquilo que você já sabe?

Cursos, livros, treinamentos e certificações podem gerar conhecimento, mas quantidade de formação não necessariamente produz uma carreira mais consistente.

A escolha do que aprender merece algum critério.

Uma boa pergunta é observar quais competências poderiam ampliar a utilidade do conhecimento já adquirido.

Para determinado líder, pode ser análise de dados. Para um especialista técnico, comunicação. Para uma pessoa que trabalha em vendas, psicologia do consumidor. Para quem acumulou décadas de experiência, talvez seja a capacidade de ensinar, produzir conteúdo ou orientar profissionais menos experientes.

Essa lógica evita a formação dispersa, em que conhecimentos são acumulados sem relação clara com problemas profissionais reais.

Desenvolvimento ganha mais valor quando existe alguma conexão entre aquilo que alguém aprende e aquilo que pretende realizar.

Essa discussão também conversa diretamente com a categoria de carreira da Palestras de Sucesso, que reúne especialistas capazes de abordar mudanças profissionais, desenvolvimento e preparação para novos cenários de trabalho.

A carreira de Karina continua produzindo novas combinações

A leitura da trajetória de Karina como exemplo de aprendizagem contínua não depende apenas de realizações antigas.

Em julho de 2026, a ANCINE aprovou para captação o projeto documental seriado “Escalando no Fim do Mundo”, desenvolvido em torno de uma expedição à Antártica.

A proposta envolve exploração, produção audiovisual e coleta de dados relacionados à tomada de decisões em situações extremas.

Mais uma vez, diferentes áreas aparecem conectadas dentro do mesmo projeto.

Esse tipo de atuação ajuda a mostrar como uma carreira multidisciplinar pode continuar se ampliando depois de muitos anos de experiência. As novas competências não precisam substituir as anteriores porque passam a criar combinações que antes não seriam possíveis.

Quanto maior essa capacidade de integração, mais difícil se torna resumir um profissional apenas ao cargo que aparece em seu currículo.

Empresas também precisam ensinar profissionais experientes a continuar aprendendo

Organizações costumam investir em treinamento quando contratam pessoas jovens, implantam uma ferramenta ou precisam corrigir uma lacuna técnica. O desenvolvimento de profissionais experientes pode receber menos atenção porque existe a expectativa de que essas pessoas já tenham construído o repertório necessário.

Essa premissa merece ser questionada.

Profissionais seniores carregam experiência que pode ser extremamente valiosa, mas também precisam de oportunidades para atualizar conhecimentos e experimentar novas formas de trabalhar. Quando isso não acontece, uma empresa corre o risco de possuir excelentes especialistas preparados para problemas que estão perdendo relevância.

Aprendizagem contínua depende do indivíduo, mas o ambiente influencia diretamente sua disposição para aprender.

Uma cultura que ridiculariza perguntas reduz a curiosidade. Uma liderança que trata erro durante o aprendizado como incompetência estimula pessoas a permanecerem apenas no território conhecido. Uma organização que recompensa exclusivamente respostas prontas perde oportunidades de descobrir novas possibilidades.

Criar espaço para que profissionais experientes aprendam novamente pode ser tão importante quanto preparar os jovens para crescer.

A experiência continua valiosa quando permanece aberta ao que ainda não foi aprendido

Karina Oliani construiu uma carreira difícil de resumir porque seu repertório foi sendo ampliado sem que as etapas anteriores precisassem desaparecer.

Essa característica oferece uma mensagem relevante para profissionais e empresas.

Especialização continua tendo enorme valor. Experiência também. O risco aparece quando aquilo que alguém já sabe passa a funcionar como justificativa para interromper a aprendizagem.

O mercado continuará criando novas ferramentas, novos cargos e novas formas de executar atividades conhecidas. Nem todas permanecerão relevantes e nenhuma pessoa conseguirá dominar tudo.

A vantagem pode estar justamente na capacidade de identificar quais novos conhecimentos merecem atenção e como eles podem aumentar o valor do repertório já construído.

Depois de anos sendo reconhecido pelo que sabe, talvez uma das decisões mais importantes de carreira seja continuar confortável o suficiente para dizer que ainda existe muito a aprender.

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