Antes do livro, das premiações internacionais e dos grandes eventos, Aline Dalcin já havia vivido uma infância no campo, conhecido Ezequiel ainda adolescente, formado uma família e assumido com ele responsabilidades no agro. Olhar para o que existia antes do reconhecimento ajuda a entender melhor tudo o que veio depois. – Por Luís Perossi
Já reparou que há fotografias que envelhecem junto com a família, ficam guardadas por anos, atravessam mudanças de casa, aniversários, perdas, casamentos, filhos e novas fases.
Em algum momento, quando voltamos a olhar para elas sabendo o que aconteceu depois, aquela imagem simples passa a carregar muito mais do que carregava no dia em que foi tirada. É o que acontece com uma fotografia de infância de Aline Dalcin, publicada em uma rede social da comunicadora e escritora.
Na imagem, ela aparece ainda pequena, sentada em uma cadeira azul, usando maiô amarelo e chinelos. O cenário é simples: uma criança diante de uma câmera, em um instante comum de uma vida que ainda estava começando.
Décadas depois, sabemos coisas que aquela menina jamais poderia antecipar. Sabemos que ela se casaria jovem, teria duas filhas, trabalharia no agro, ficaria alguns anos longe da escola, voltaria a estudar e concluiria uma graduação.
Além disso, sabemos que ela encontraria espaço na comunicação, se tornaria uma palestrante premiada internacionalmente, escreveria um livro que figurou dentre os mais vendidos na Amazon, pisaria em grandes palcos e receberia reconhecimentos fora do Brasil. Começar sua biografia pelos prêmios seria, por isso, começar tarde demais.
A menina que cresceu entre liberdade, campo e responsabilidade
Aline nasceu em São Borja, no Rio Grande do Sul, filha de Enio Luiz Possamai e Marley Possamai. Ao contar sua própria infância à Revista Extraordinária, lembrou de uma vida bastante ligada ao interior e à natureza.
Suas recordações passam por brincadeiras na areia, banhos de lago, bicicleta, cavalo e pela convivência com os três irmãos trigêmeos.
A liberdade da infância, segundo ela, vinha acompanhada de cobrança por responsabilidade. Os pais permitiam que os filhos vivessem aquele ambiente com autonomia, mas compromisso e consequência faziam parte da educação dentro de casa.
A própria Aline descreveu essa época como uma infância feliz e livre. (Revista Extraordinária)
Esse dado ajuda a entender uma característica que apareceria repetidamente muitos anos depois. A relação de Aline com o campo não nasceu de posicionamento profissional, de fotografia para rede social ou de uma tentativa de se aproximar do agronegócio. A terra já fazia parte de sua memória muito antes de existir uma carreira pública.
Existe ainda outra lembrança curiosa daquele período. Entre aproximadamente 11 e 13 anos, Aline conta que carregava uma sensação difícil de explicar para uma criança.
Em determinados momentos, percebia dentro de si uma inquietação traduzida pela ideia de que aquilo que estava diante de seus olhos não era tudo. Em entrevista, recordou uma frase que dizia ouvir internamente:
“Aline, não é só isso. Tem mais coisas.”
Não é necessário transformar essa memória em previsão sobre o futuro. O dado interessa porque mostra uma menina que já pensava sobre possibilidades que iam além do ambiente imediato em que vivia.
Outro detalhe da infância parece ainda mais curioso quando olhamos sua profissão anos depois. Aline gostava de brincar de dar aula para os irmãos.
Em entrevista publicada pela Revista VOI, associou essa lembrança ao interesse que mais tarde teria pela Pedagogia. Os primeiros alunos estavam dentro de casa, mas a passagem da brincadeira infantil para a formação universitária demoraria muitos anos.
Ezequiel entrou na história antes dos palcos, dos livros e dos prêmios
Aline tinha 13 anos quando começou a namorar Ezequiel Dalcin. Aos 16, eles se casaram.
Visto hoje, quando parte da vida de Aline está documentada em entrevistas, matérias, eventos e redes sociais, é fácil reduzir esse dado a uma curiosidade romântica. A idade, porém, conta apenas uma parte do que aconteceu.
Casar tão jovem significou entrar também muito cedo em responsabilidades adultas. Aline interrompeu os estudos ainda na oitava série e passou a cuidar da família que começava a formar.
Na mesma época, ela e Ezequiel começaram a trabalhar na atividade agropecuária. (Revista Extraordinária)
A vida dos dois não começou com uma empresa pronta, dois profissionais experientes e um plano detalhado para os próximos vinte anos. Eles foram aprendendo enquanto viviam.
Uma reportagem publicada em 2023 relata que, poucos meses depois do casamento, o pai de Ezequiel morreu. A partir daquele momento, o jovem casal precisou assumir responsabilidades maiores ligadas à Agropecuária São Donato.
Segundo a publicação, Ezequiel ficou principalmente à frente do operacional, enquanto Aline assumiu tarefas administrativas. (Última Hora Online)
Esse episódio muda a leitura sobre a história do casal. Ezequiel não apareceu na vida de uma palestrante conhecida e Aline também não entrou já adulta na vida de um agropecuarista com tudo resolvido. Os dois começaram quando quase tudo ainda precisava ser construído.
O agro não entrou depois na história deles
As imagens atuais de Aline e Ezequiel diante de plantações podem passar a impressão de que o agro é apenas uma das atividades profissionais do casal.A história mostra outra coisa.
O campo atravessa a infância de Aline, aparece no começo de seu casamento, participa da construção da família e continua presente décadas depois.
A CARAS Country descreveu Aline como agropecuarista e registrou sua atuação ligada a gado de corte, arroz, soja e trigo no Rio Grande do Sul. Na mesma reportagem, ela resume de forma bastante pessoal sua relação com esse universo ao afirmar que tem “muito amor pela terra”. (CARAS Country)
Ezequiel aparece publicamente de maneira muito mais discreta. Nas reportagens localizadas sobre a família, é identificado como agropecuarista e aparece ligado ao lado operacional do negócio rural. Essa diferença entre os dois também ajuda a compreender o caminho que cada um passou a ocupar.
Aline começou a circular por outros ambientes, investiu nos estudos, entrou na comunicação, passou a conceder entrevistas, fazer palestras e participar de eventos.
Ezequiel permaneceu bem menos exposto, associado principalmente ao agro e à construção familiar que começou décadas antes. A fotografia dos dois no campo ganha outro significado quando sabemos disso.
Não é um casal escolhendo uma lavoura para produzir uma boa imagem.
É uma paisagem que já fazia parte da vida antes que alguém tivesse interesse em fotografá-los ali.
Família, trabalho e uma vida acontecendo longe dos aplausos
A maternidade chegou cedo para Aline. A primeira filha, Isabelle, nasceu quando ela tinha 19 anos. Nicolle viria anos depois. A partir dali, casamento, filhos, trabalho e responsabilidades empresariais passaram a coexistir.
Em entrevistas, Aline nunca descreveu esse período como uma vida perfeita. Quando falou sobre casamento, família e negócios, reconheceu que houve dificuldades e que aprender a conviver também significou enfrentar partes desconfortáveis de si mesma e do relacionamento. (Revista Mensch)
Esse aspecto merece espaço porque impede que a história vire uma homenagem artificial. Relacionamentos longos não são interessantes porque atravessam décadas sem conflitos. São interessantes justamente porque duas pessoas precisam aprender a permanecer enquanto a vida muda.
Aline e Ezequiel começaram a namorar quando ela tinha 13 anos. Depois vieram casamento, responsabilidades no agro, duas filhas, mudanças profissionais e escolhas que não poderiam ter sido previstas naquela adolescência.
Quando o público passou a conhecer Aline, Ezequiel já conhecia muitas versões dela. Conhecia a adolescente, a esposa jovem, a mãe, a mulher ligada à administração do negócio.
Mais tarde conheceria também a estudante que resolveu voltar à escola e a profissional que começaria a conquistar espaço fora do universo rural.
Aline deixou a escola, mas não encerrou sua relação com o estudo
Uma parte da história de Aline poderia facilmente ter terminado aos 16 anos. Ela interrompeu a escola, casou-se, tornou-se mãe e construiu uma vida ligada ao campo. Anos depois, decidiu retomar os estudos.
Ela ficou cerca de 15 anos afastada da sala de aula, fez supletivo, prestou o Enem e entrou na faculdade. Depois concluiu Pedagogia e continuou buscando novas formações.
O retorno chama atenção quando colocado ao lado daquela lembrança de infância em que brincava de dar aula para os irmãos. A criança gostava de ensinar, a adolescente precisou deixar a escola, a mulher decidiu voltar. Não há necessidade de enfeitar essa sequência, ela já é suficientemente boa.
A retomada também alterou a relação de Aline com o próprio tempo. Em entrevistas mais recentes, ela fala sobre leitura e estudo como hábitos incorporados à rotina. Aquilo que havia sido interrompido na juventude voltava a ocupar espaço na vida adulta.
O estudo, aos poucos, abriu caminhos que não existiam quando ela e Ezequiel começaram a construir a vida juntos.
Foi pela comunicação que mais pessoas passaram a conhecer Aline
A entrada de Aline na comunicação aconteceu gradualmente.
Ela começou a receber convites para pequenas palestras, participou de lives e posteriormente apresentou o programa Terapia ComBrasil. As experiências diante das câmeras e nas conversas com convidados aproximaram Aline de uma atividade bastante distante daquela jovem que havia começado a vida adulta trabalhando na agropecuária.
A timidez também faz parte desse capítulo. Em entrevista à CARAS, ela contou que precisou trabalhar essa característica até conseguir ocupar espaços como comunicadora. (CARAS Country)
A rede profissional começou a crescer.
Há registros de entrevistas, conversas e eventos com nomes conhecidos do esporte, dos negócios e da comunicação. Na Palestras de Sucesso, por exemplo, aparecem ações com Geraldo Rufino, Tande, Fernando Scherer, Túlio Maravilha e Marcos Rossi. O CONEDI também colocou Aline em eventos com outros nomes de grande projeção nacional. (Palestras de Sucesso)
A mudança de ambiente é grande quando comparada ao começo da história.
Mas ela não substituiu o que veio antes.
Criou outra frente de vida.
Quando o livro chegou, havia décadas de vida antes da primeira página
Em 2023, Aline publicou pela Citadel Ser para Ter: 12 Passos para uma Vida Plena.
O livro aborda temas ligados a relacionamentos, escolhas, saúde emocional, adaptação, cooperação e comportamento. A publicação formalizou em livro parte dos assuntos que já apareciam em suas palestras, entrevistas e conteúdos. (Citadel)
Existe uma particularidade interessante quando olhamos para a ordem dos acontecimentos.
Aline não escreveu um livro sobre vida antes de viver as experiências que passaram a alimentar seu discurso profissional.
Quando chegou à publicação, ela já havia passado por casamento precoce, maternidade, atividade empresarial, abandono e retorno aos estudos, mudança profissional e anos de convivência familiar.
Isso não faz de sua experiência uma regra para outras pessoas.
Faz com que o que ela escreve tenha ligação direta com situações que fizeram parte da própria biografia.
Londres e Roma chegaram bem depois de São Borja
Os reconhecimentos internacionais ampliaram a exposição de Aline.
Em 2022, ela participou do Top of Mind International, em Londres. A presença está registrada em edição especial da Fama Magazine dedicada ao evento. (Fama Magazine)
Em 2023, recebeu homenagem no Top Empreendedor, realizado no Copacabana Palace, e também esteve entre os homenageados do Top of Business, em Roma. (Jornal Ceará)
A passagem por Roma também foi registrada em cobertura relacionada ao International Business Institute.
É nesse ponto que o título desta história começa a fazer sentido.
Quando essas premiações chegaram, Aline e Ezequiel não estavam começando.
Já havia décadas antes daqueles palcos.
Havia uma infância no interior, namoro adolescente, casamento, luto, trabalho, família, filhas, administração rural, retorno aos estudos e uma relação que atravessava todas essas mudanças.
Um reconhecimento diferente veio justamente de casa
Existe uma diferença entre ser reconhecido longe de casa e ser reconhecido pelo lugar onde sua história começou.
Em 2025, a Câmara Municipal concedeu a Aline Possamai Dalcin o Título de São-borjense Ilustre. A entrega foi realizada em sessão solene do Legislativo de São Borja. (Câmara Municipal de São Borja)
A homenagem tem um significado diferente quando colocada ao lado da fotografia de infância.
A cidade ligada às primeiras lembranças de Aline passava a reconhecer oficialmente uma mulher cuja trajetória já havia alcançado outros países.
Londres mostra até onde ela foi.
Roma mostra a projeção conquistada.
São Borja lembra de onde ela saiu.
Quando o sucesso chegou, eles já sabiam quem eram um para o outro
Há uma segunda fotografia que ajuda a terminar essa história.
Nela, Aline e Ezequiel aparecem juntos, já adultos. Atrás do casal existe uma extensa área de plantação.
A distância entre aquela criança sentada na cadeira azul e essa mulher fotografada ao lado do marido não pode ser medida apenas em anos.
No intervalo entre as duas imagens estão a adolescência, o casamento aos 16, a perda do pai de Ezequiel, a responsabilidade assumida no agro, o nascimento das filhas, os anos longe da escola, a decisão de voltar a estudar, a formação em Pedagogia, a comunicação, o livro, os grandes eventos e os reconhecimentos.
Só que algumas coisas atravessaram todo esse período. A terra permaneceu na história e Ezequiel também.
Quando Aline começou a ser reconhecida por pessoas que nunca haviam convivido com ela, o marido já conhecia boa parte das versões que construíram aquela mulher.
Da mesma forma, quando Ezequiel passou a aparecer ao lado de uma palestrante, autora e empresária conhecida, Aline já conhecia o rapaz com quem começou a namorar na adolescência, o homem que enfrentou com ela responsabilidades precoces e o agropecuarista com quem construiu uma família.
Isso talvez explique por que a fotografia dos dois no campo tenha tanto peso. Ela não mostra o início e também não mostra o ponto final.
Mostra duas pessoas ainda dentro da mesma história. A menina da cadeira azul cresceu. O mundo que ela conhecia ficou maior, vieram cidades distantes, câmeras, livros, eventos e outras possibilidades.
A fotografia final, porém, não precisa ser em Londres ou Roma, pode ser ali mesmo, no campo.
Aline ao lado de Ezequiel, a lavoura atrás dos dois.
Porque, depois de tudo o que mudou, aquela imagem revela algo que prêmio nenhum consegue mostrar sozinho: quando o sucesso finalmente encontrou Aline e Ezequiel, encontrou uma história que já existia havia muito tempo.
Fontes
- Revista Extraordinária, trajetória de Aline Dalcin
https://www.revistaextraordinaria.com.br/aline-dalcin-conheca-a-trajetoria-desta-coach-sistemica - Revista Mensch, entrevista com Aline Dalcin
https://revistamensch.com.br/mulher-em-foco-aline-dalcin-e-o-autoconhecimento/ - CARAS Country, perfil de Aline e ligação com o agro
https://caras.com.br/country/persistencia-e-multiplas-facetas-de-aline-dalcin.phtml - Última Hora Online, trajetória, Agropecuária São Donato e responsabilidades com Ezequiel
https://www.ultimahoraonline.com.br/noticia/aline-dalcin-colhe-frutos-de-seu-livro-ser-para-ter-12-passos-pra-uma-vida-plena - Citadel, apresentação de Aline e livro Ser para Ter
https://www.citadel.com.br/releases/ser-para-ter/ - Citadel, página do livro Ser para Ter
https://www.citadel.com.br/livro/ser-para-ter/ - Citadel, perfil da autora
https://www.citadel.com.br/autor/aline-dalcin/ - Palestras de Sucesso, eventos e conteúdos com Aline
https://palestrasdesucesso.com.br/cliente/aline-dalcin/ - Palestras de Sucesso, CONEDI e evento com Geraldo Rufino
https://palestrasdesucesso.com.br/cliente/conedi/ - Fama Magazine, edição especial do Top of Mind International em Londres
https://www.yumpu.com/pt/document/view/67274988/fama-magazine-com-aline-dalcin-edicao-especial - Jornal Ceará, homenagem no Top Empreendedor
https://jornalceara.com/aline-dalcin-recebeu-premio-top-emprendedor-pelo-ibi/ - Última Hora Online, Top of Business em Roma
https://www.ultimahoraonline.com.br/noticia/brilho-e-excelencia-em-roma-homenageados-do-premio-top-of-business-2023-marcam-uma-noite-memoravel - Câmara Municipal de São Borja, título de São-borjense Ilustre
https://www.saoborja.rs.leg.br/noticia/legislativo-sao-borjense-realiza-sessao-solene-de-entrega-dos-titulos-de-cidadao-sao-borjense-e-sao-borjense-ilustre/2f3002447815c33e85c9382d89708e12






