Quem não sente medo talvez não tenha entendido o risco – Com Karina Oliani

Karina Oliani mostra por que coragem não está em ignorar o medo, mas em compreender o risco, preparar-se melhor e decidir quando realmente vale a pena seguir.

Karina Oliani passou boa parte da vida em ambientes nos quais o medo não é uma abstração. Já esteve em montanhas acima dos 8 mil metros, mergulhou com grandes predadores, participou de expedições em regiões remotas e atravessou mais de 100 metros suspensa sobre o lago de lava Erta Ale, na Etiópia.

Como vencer o medo sem ignorar os riscos?

Vencer o medo não significa deixar de senti-lo. O primeiro passo é entender se ele está sinalizando um risco real ou apenas o desconforto provocado por uma situação nova. A partir daí, informação, preparação, treinamento e planejamento ajudam a transformar o medo em um elemento para tomar decisões mais conscientes, em vez de permitir que ele determine sozinho o que fazer.

Por isso, quando fala sobre coragem, ela parte de um lugar bastante diferente daquele discurso simplista que associa coragem à ausência de medo. Para Karina, sentir medo não significa estar despreparado, muito menos ser fraco. Em diversas situações, o medo é justamente o sinal que obriga uma pessoa a entender melhor o cenário, estudar o risco e decidir com mais consciência.

Essa perspectiva muda bastante uma pergunta que muita gente faz: como vencer o medo? Talvez o primeiro passo não seja tentar fazê-lo desaparecer, mas entender o que exatamente ele está dizendo.

O medo não precisa desaparecer para que alguém seja corajoso

Karina já explicou publicamente que desconfia de quem afirma não sentir medo de nada. Dependendo da situação, essa ausência de medo pode não ter relação alguma com coragem. Pode simplesmente indicar que a pessoa ainda não percebeu direito o tamanho do risco que está correndo.

Essa visão aparece com muita clareza na maneira como ela se prepara para suas expedições. Antes de um grande desafio, existe pesquisa, treinamento, estudo de equipamentos, avaliação das condições, conversa com especialistas e construção de alternativas para aquilo que pode sair do previsto.

Quem olha apenas para a fotografia de Karina no Everest, no K2 ou atravessando um lago de lava enxerga o momento mais impressionante. O que a imagem não mostra é o volume de preparação necessário para que aquele instante pudesse acontecer.

É nesse ponto que coragem começa a se aproximar muito mais de Estratégia e Execução do que daquele impulso de simplesmente “ir com tudo”.

Ousadia sem compreensão do risco não é necessariamente coragem. Em determinados cenários, pode ser apenas imprudência com uma boa narrativa depois.

A parte mais importante da coragem muitas vezes acontece antes do desafio

Quando Karina realizou a travessia sobre o lago de lava Erta Ale, o feito entrou para o Guinness World Records. Foram 100,58 metros atravessados em uma situação que, vista de fora, parece resumir perfeitamente a ideia de aventura extrema.

Só que o recorde começa muito antes daqueles 100 metros.

Foi preciso estudar a operação, reunir pessoas capacitadas, avaliar equipamentos, definir pontos de segurança, pensar nos efeitos do calor e prever diferentes cenários para uma situação em que improvisar poderia ter consequências sérias.

Esse talvez seja um dos aprendizados mais interessantes de sua trajetória para o ambiente corporativo. Grandes decisões raramente deveriam ser avaliadas apenas pelo momento em que alguém teve coragem de dizer “vamos”.

Existe todo um trabalho anterior que determina se aquela decisão foi corajosa ou apenas precipitada.

Empresas também gostam de celebrar o instante final. O lançamento, a expansão, a meta alcançada, o projeto entregue. Pouco se fala sobre as conversas difíceis, as revisões, os riscos identificados e os cenários descartados antes de tudo isso.

Karina conhece bem essa diferença porque, em ambientes extremos, preparação não é burocracia. É parte da sobrevivência.

Ter um plano alternativo não significa acreditar menos no principal

Outra ideia presente na maneira como Karina enfrenta grandes desafios é a importância de ter alternativas.

Ela já falou sobre trabalhar não apenas com um plano B, mas, em algumas situações, chegar até um plano D.

Pode parecer contraditório para quem associa confiança à certeza absoluta de que o caminho escolhido dará certo. Só que a experiência em situações de risco ensina justamente o contrário.

O clima muda, um equipamento pode falhar, o corpo pode reagir de maneira inesperada e uma condição que parecia aceitável pode se tornar perigosa poucas horas depois.

Preparar alternativas não é torcer para o fracasso do plano original. É admitir que nem todas as variáveis estão sob controle.

Dentro de uma empresa, essa lógica deveria fazer parte de qualquer conversa séria sobre Gestão Estratégica e gerenciamento de riscos.

Uma equipe madura não pergunta somente se acredita no plano. Pergunta também quais hipóteses precisam permanecer verdadeiras para que ele continue funcionando e o que será feito caso alguma delas mude.

A confiança mais útil não é aquela baseada na repetição de que tudo dará certo. É a confiança de quem consegue seguir adiante sabendo que também está preparado caso alguma coisa não saia como imaginado.

O medo de errar não desaparece quando a pessoa fica experiente

Há outro aspecto interessante na trajetória de Karina porque ele contraria bastante a imagem que costuma ser construída ao redor de pessoas que enfrentaram situações extremas.

Ela já falou sobre o desconforto diante das câmeras e sobre o medo de falar em público, mesmo depois de centenas de apresentações.

É uma contradição apenas para quem acredita que os medos obedecem a uma lógica simples.

Uma pessoa pode escalar o Everest e continuar sentindo o coração acelerar antes de subir em um palco. Pode conhecer situações objetivamente perigosas e ainda se sentir insegura diante do julgamento de uma plateia.

Experiência não necessariamente elimina o medo. Muitas vezes, ela melhora nossa capacidade de continuar funcionando apesar dele.

No ambiente profissional, essa diferença é importante porque muita gente espera sentir confiança completa antes de agir. Espera o momento em que não haverá insegurança, dúvida ou receio de errar.

Talvez esse momento nunca chegue.

Um profissional pode estar preparado para apresentar uma ideia e ainda ficar nervoso. Pode assumir uma nova responsabilidade sem sentir que domina tudo. Pode tomar uma decisão importante sabendo que existe uma margem de incerteza.

A questão não é esperar o medo desaparecer. É descobrir se ele está sinalizando falta real de preparo ou apenas o desconforto natural de fazer alguma coisa importante.

Nem todo desconforto significa perigo

Essa distinção talvez seja uma das mais úteis quando se tenta transportar os aprendizados de Karina para a vida profissional.

Uma apresentação pode provocar ansiedade sem representar risco real. Nesse caso, o desconforto pode precisar ser atravessado.

Em outra situação, um profissional percebe que faltam dados importantes, que existem inconsistências num projeto ou que uma decisão está sendo tomada depressa demais.

Nesse cenário, simplesmente repetir “vai com medo mesmo” seria uma péssima orientação.

Karina trabalha exatamente com essa diferença entre coragem e inconsequência.

Coragem não significa ignorar sinais de perigo. Significa conseguir interpretá-los para decidir se é preciso avançar, preparar-se melhor ou até interromper o caminho.

Essa lógica também vale para tomada de decisão. Nem toda hesitação precisa ser combatida. Algumas existem porque ainda há perguntas que precisam ser respondidas.

Sua experiência também pode se transformar em uma palestra relevante

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Ambientes extremos não se importam com o quanto alguém desejava chegar ao cume

Talvez poucas situações sejam tão eficientes para colocar o ego em perspectiva quanto uma grande montanha.

Uma pessoa pode ter treinado durante anos, investido dinheiro, viajado milhares de quilômetros e imaginado aquele momento centenas de vezes. Ainda assim, as condições podem indicar que continuar deixou de ser uma decisão responsável.

A montanha não muda porque alguém está muito motivado.

Essa experiência cria um contraponto interessante ao discurso de que desistir é sempre sinal de fraqueza.

Persistência é importante, claro. Sem ela, Karina provavelmente não teria realizado boa parte daquilo que realizou.

Só que existe uma diferença entre persistência e insistência cega.

Continuar apenas porque já houve muito investimento de tempo, esforço ou dinheiro não transforma automaticamente uma decisão ruim em uma decisão corajosa.

Empresas convivem com esse problema o tempo inteiro. Projetos continuam porque já consumiram meses de trabalho, estratégias permanecem porque alguém importante as aprovou e metas deixam de ser questionadas porque foram apresentadas como símbolo de comprometimento.

A experiência em ambientes extremos ensina algo menos confortável: às vezes, mudar de rota é justamente a decisão mais responsável.

Coragem também envolve reconhecer limites

Outro ponto que aparece quando se acompanha a trajetória de Karina é a ideia de que ninguém vive permanentemente no cume.

Há períodos de preparação, momentos de avanço, trechos difíceis e situações em que é preciso recuar.

A fotografia da conquista costuma esconder essa parte.

Quando alguém vê uma imagem no Everest, é fácil imaginar apenas aquele instante. Só que a maior parte da experiência aconteceu longe dali, em treinos, decisões, erros, revisões e dias em que nada parecia extraordinário.

Isso ajuda a explicar por que reduzir a trajetória de Karina apenas à palavra “superação” é pouco.

O que existe por trás das conquistas dela envolve capacidade de análise, leitura de risco, disciplina, trabalho em equipe e disposição para rever decisões quando a realidade muda.

A coragem aparece justamente porque existe consciência do que está em jogo.

Afinal, como vencer o medo?

A experiência de Karina sugere que talvez a pergunta precise ser ajustada.

Nem sempre vencer o medo significa eliminá-lo.

Em muitas situações, ele pode servir como uma espécie de informação inicial. O medo mostra onde há incerteza, onde falta preparo ou onde existe algo que merece ser analisado com mais cuidado.

O problema surge quando ele passa a decidir sozinho.

Uma resposta mais madura envolve entender de onde aquela sensação vem, avaliar se existe risco real, buscar informação, preparar-se melhor e só então decidir se vale a pena seguir.

Isso exige muito mais do que uma frase motivacional.

Também explica por que Karina Oliani consegue falar sobre coragem de um lugar tão particular. Ela não construiu essa visão apenas estudando desafios extremos. Viveu situações nas quais risco, preparo e decisão estavam concretamente ligados.

No fim, talvez a melhor definição seja menos romântica e muito mais útil:

coragem não é agir como se nada pudesse dar errado. É compreender o que pode dar errado, preparar-se para isso e, ainda assim, reconhecer quando existe motivo suficiente para seguir em frente.

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Com experiências que passam pelo Everest, K2, medicina em áreas remotas e expedições extremas, Karina transforma histórias reais em reflexões sobre coragem, planejamento, risco, trabalho em equipe e tomada de decisão.


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