1- Kamila, muito obrigada por estar conosco. Seu trabalho tem transformado a maneira como entendemos o autocuidado, especialmente dentro das exigências emocionais do ambiente profissional.
Como nasceu sua missão de tornar o autocuidado uma ferramenta acessível, real e aplicável também ao mundo do trabalho?
Resposta: Eu que agradeço pelo carinho e pela oportunidade de falar sobre algo tão essencial.
Minha missão nasceu da minha própria dor. Tive uma infância marcada por privações emocionais, e ao longo da vida, fui percebendo o quanto a falta de autocuidado nos afasta de nós mesmos, nos adoece e compromete nossa performance em todas as áreas – inclusive no trabalho.
Com o tempo, entendi que o autocuidado não é luxo, não é vaidade – é sobrevivência. E quando a gente entende isso, começa a enxergar que ele precisa estar presente também na rotina profissional, onde tantas vezes somos exigidos além da conta e esquecemos de nós.
Minha proposta é mostrar que é possível cultivar equilíbrio mesmo em ambientes desafiadores, com práticas simples, humanas e reais. Eu trago isso com base na minha história, na psicologia e na fé, porque acredito que o cuidado começa dentro – e transborda para tudo ao redor, inclusive o trabalho.
2- A culpa por “não dar conta de tudo” é uma dor recorrente em profissionais multitarefas, especialmente mulheres. Como essa culpa impacta o desempenho e o bem-estar nas organizações?
Resposta: A culpa é uma das maiores sabotadoras do bem-estar profissional, especialmente entre mulheres. Vivemos sobrecarregadas tentando dar conta de tudo: carreira, casa, filhos, estudos, relações… e quando algo escapa, nos sentimos insuficientes.
Essa culpa constante gera um estado de alerta emocional que afeta diretamente o desempenho. O foco diminui, a autoestima enfraquece, e a criatividade vai embora.
Aos poucos, a profissional competente começa a duvidar do seu valor — e isso se reflete na produtividade, nos relacionamentos de trabalho e até nas decisões que ela toma.
Além disso, o ambiente organizacional também sofre, porque uma equipe que opera sob culpa e exaustão não consegue sustentar inovação, saúde mental e resultados consistentes.
Por isso, é urgente normalizar limites, reconhecer que não dar conta de tudo não é fracasso — é humano. E organizações que entendem isso criam espaços mais seguros e potentes para todos.
3- Você acredita que a estética se tornou uma distração do verdadeiro autocuidado? Como diferenciar um momento de vaidade de um ato de autopreservação?
Resposta: Eu acredito que a estética, por si só, não é o problema. O que pode se tornar uma distração é quando colocamos a aparência acima das nossas reais necessidades emocionais, mentais e espirituais.
Vivemos numa cultura que nos ensina que estar bem é parecer bem — e isso muitas vezes nos afasta do verdadeiro autocuidado, que é silencioso, profundo e, na maioria das vezes, invisível aos olhos.
Cuidar da aparência pode sim ser uma forma de carinho, de se reconectar com a autoestima. Mas quando isso vira uma obrigação, uma cobrança ou uma fuga para não encarar dores internas, perde seu valor como autocuidado e se torna apenas vaidade mascarada.
A diferença está na intenção. Se estou me maquiando para me sentir bem comigo, ótimo. Mas se estou me maquiando para esconder o cansaço, a tristeza ou a culpa que não estou tratando, então não é autocuidado — é sobrecarga disfarçada.
Autopreservação é escolher aquilo que te sustenta por dentro, mesmo que ninguém veja. É um olhar de dentro pra fora, e não o contrário.
4- Uma das suas palestras mais requisitadas fala sobre autocuidado como arma contra o burnout. Que sinais sutis, e frequentemente ignorados, você destacaria como alertas precoces? Ao identificá-los o que você sugere fazer?
Resposta: O burnout não começa de uma hora pra outra — ele dá sinais, mas a gente costuma ignorar porque estamos sempre no modo “sobrevivência”.
Alguns sinais sutis e perigosos incluem:
– Uma fadiga que não passa nem com descanso
– Irritação frequente, até com coisas pequenas
– Dificuldade de concentração ou esquecimentos
– Sensação de vazio ou de estar “no piloto automático”
– Perda de prazer em coisas que antes traziam alegria
– Uma cobrança interna excessiva, como se descansar fosse pecado
O problema é que, muitas vezes, esses sinais são normalizados. A pessoa acha que é só uma fase, que precisa ser mais forte, que todo mundo está cansado. Mas o corpo e a mente já estão gritando por socorro.
Quando esses alertas surgem, o ideal é parar, nem que seja por alguns minutos, e se perguntar: o que estou precisando agora que não estou me permitindo sentir ou atender?
Buscar apoio — seja psicológico, espiritual ou profissional — é essencial. Além disso, pequenas mudanças na rotina, como respeitar pausas, dizer mais “não”, e resgatar momentos de prazer, já fazem diferença.
Autocuidado, nesse contexto, não é spa. É decisão. É o ato de se proteger de um colapso que parece silencioso, mas cobra um preço alto quando chega.
E a o meio corporativo pode com certeza fazer ajudar no autocuidado de seus colaboradores, com palestras que lembrem sobre se cuidar é importante e crucial para uma vida plena.
5- O burnout tem sido tratado como problema individual, quando muitas vezes é reflexo de um sistema doente. Como as empresas podem agir de forma coletiva e ética na prevenção?
Resposta: Exato — o burnout não é só um problema individual, é muitas vezes o sintoma de um sistema organizacional doente, onde metas são desumanas, pausas são vistas como fraqueza e o silêncio emocional é uma regra não escrita.
Felizmente, estamos vivendo uma virada de consciência. A nova atualização da NR-17, que trata da ergonomia, trouxe pela primeira vez uma abordagem clara sobre riscos psicossociais no ambiente de trabalho, reconhecendo o impacto da saúde mental nas condições laborais.
Isso significa que as empresas agora têm uma responsabilidade legal e ética de cuidar da saúde emocional dos colaboradores.
Prevenir o burnout exige ações coletivas e consistentes, como:
– Revisar cargas e jornadas de trabalho
– Promover pausas reais e respeitadas
– Incentivar uma cultura de diálogo seguro
– Treinar lideranças para acolhimento emocional e gestão humanizada
– Oferecer apoio psicológico acessível e contínuo
Mais do que benefícios pontuais, é sobre criar um ambiente onde as pessoas não precisem adoecer para serem ouvidas. Cuidar de quem cuida é uma escolha estratégica, humana e hoje, também, uma obrigação ética e legal.
6- Quais são os hábitos mais tóxicos (mas comuns) que colaboram para o esgotamento emocional nas equipes?
Resposta: Muitos hábitos tóxicos no ambiente de trabalho são tão comuns que acabam sendo naturalizados — e isso é um perigo. Pequenas atitudes repetidas todos os dias criam um clima de tensão silenciosa que vai minando a saúde emocional das equipes.
Alguns desses hábitos são:
– Responder tudo com urgência, o tempo todo (como se ninguém pudesse respirar)
– Reuniões intermináveis e sem propósito
– Excesso de cobrança sem clareza ou reconhecimento
– Comparações entre colegas que geram competição em vez de colaboração
– Falta de feedbacks construtivos ou comunicação passivo-agressiva
– Silenciamento emocional, onde ninguém pode demonstrar fragilidade ou pedir ajuda
– E o pior de todos: lideranças que geram medo, e não confiança
Um ambiente hostil e tóxico não precisa gritar — muitas vezes ele se instala em olhares, piadas, pressões sutis e descaso com o bem-estar. E quando esse clima é ignorado, o esgotamento se torna coletivo.
Prevenir isso passa por humanizar as relações, promover escuta ativa, desenvolver lideranças emocionalmente saudáveis e criar uma cultura onde respeito, empatia e pausas façam parte da rotina.
Cuidar do ambiente é tão importante quanto cuidar das pessoas — porque um solo adoecido não faz ninguém florescer.
7- Você atende muitas pessoas que “perderam a conexão consigo mesmas” em meio à rotina profissional. O que pode ser feito para resgatar essa identidade perdida dentro e fora do trabalho?
Resposta: Sim, atendo muitas pessoas que chegaram ao ponto de olhar no espelho e não se reconhecerem mais. Vivem no automático, cumprindo tarefas, batendo metas, cuidando de tudo e de todos — menos de si.
Essa desconexão com a própria essência dói. Porque não é só sobre cansaço físico, é sobre esquecer quem se é, o que se ama, o que faz sentido. E quando isso acontece, até as vitórias profissionais perdem o sabor.
O caminho de volta começa com autoconhecimento e coragem para silenciar o barulho externo. Perguntas simples podem abrir portas poderosas, como: O que eu gostava de fazer antes de tudo isso? O que me faz bem de verdade? Quando foi a última vez que fiz algo só por mim, sem culpa?
Dentro do trabalho, isso significa estabelecer limites, dar pausas reais, resgatar a autonomia e lembrar que você é mais do que o seu cargo.
Fora dele, significa reconectar com o que nutre a alma: fé, relações saudáveis, arte, natureza, descanso, terapia… tudo que te lembra que você não nasceu só pra produzir.
Resgatar a identidade é um processo — e começa quando você se permite ser, e não apenas fazer.
8- Como líderes e empresas podem ajudar seus times a reencontrarem sentido no que fazem, sem cair no discurso motivacional vazio?
Resposta: Encontrar sentido no trabalho não vem de frases prontas ou de discursos motivacionais que ignoram a realidade da equipe. Propósito não se impõe — se desperta, se constrói no dia a dia com coerência, escuta e humanidade.
Líderes e empresas que realmente querem ajudar seus times a reencontrar o sentido no que fazem precisam começar por valorizar o ser humano antes do resultado. Isso significa:
– Entender que por trás de cada colaborador existe uma história, uma dor, uma força
– Criar espaços de escuta real, onde as pessoas se sintam vistas e ouvidas
– Deixar claro como o trabalho de cada um contribui para algo maior, para um impacto real
– Oferecer oportunidades de crescimento que respeitem o tempo e os sonhos de cada pessoa
– Ser exemplo: líderes que vivem o que pregam inspiram mais do que qualquer discurso
Quando o ambiente é seguro, ético e respeitoso, as pessoas não apenas produzem mais — elas se conectam com o que fazem. E aí sim, encontram sentido.
Motivação verdadeira nasce de um lugar interno, mas precisa de solo fértil ao redor para florescer. É isso que empresas conscientes ajudam a construir.
9- Dizer “não” sem culpa ainda é tabu em ambientes hierárquicos. Que caminhos você propõe para desenvolver essa habilidade sem romper vínculos?
Resposta: De fato, dizer “não” ainda é visto como um desafio em ambientes hierárquicos, principalmente porque muitos associam o “não” à rebeldia, desrespeito ou quebra de vínculo. Mas a verdade é que dizer “sim” para tudo nos adoece — e nos afasta daquilo que realmente importa.
Aprender a dizer “não” com respeito é uma habilidade emocional que protege a saúde, a produtividade e as relações. E não precisa ser um rompimento. Pode (e deve) ser uma escolha consciente, feita com empatia e clareza.
Alguns caminhos possíveis:
– Substituir o confronto pela conversa: um “não agora, mas posso depois” já abre espaço para negociação sem rigidez.
– Explicar o limite com assertividade e respeito, mostrando que ele é necessário para manter a qualidade do que será entregue.
– Estabelecer prioridades junto com a liderança, em vez de tentar resolver tudo sozinha.
– E, principalmente, entender que dizer “não” ao excesso é dizer “sim” ao equilíbrio e à entrega sustentável.
Quando o “não” vem de um lugar maduro e honesto, ele não rompe vínculos — ele os fortalece, porque mostra que existe responsabilidade consigo mesma e com os outros.
Autocuidado também é saber até onde se pode ir — e ter coragem para comunicar isso com amor.
10- Como a ausência de limites impacta negativamente a produtividade e os relacionamentos profissionais?
Resposta: A ausência de limites é como uma brecha aberta para o desgaste contínuo. Sem limites claros, a pessoa acaba aceitando demandas exageradas, estendendo jornadas, perdendo o foco e colocando o bem-estar em segundo plano.
Isso impacta a produtividade porque a energia e a atenção ficam dispersas, a qualidade do trabalho cai e o risco de erros aumenta. Além disso, a sensação constante de sobrecarga gera estresse, irritabilidade e esgotamento — tudo inimigo da alta performance.
No campo dos relacionamentos profissionais, a falta de limites gera ressentimentos, falta de clareza e conflitos que poderiam ser evitados. Quando alguém não delimita o que pode ou não fazer, cria expectativas irreais para si e para os outros, gerando frustrações e desgaste emocional.
Estabelecer limites não é fechar portas, mas sim abrir caminho para um trabalho mais saudável, focado e colaborativo. É o equilíbrio que sustenta a produtividade e a convivência respeitosa.
11- Empatia e escuta ativa são pilares das suas palestras. Como essas competências emocionais mudam a forma como lideramos e somos liderados?
Resposta: Empatia e escuta ativa são verdadeiros pilares para uma liderança humana e eficaz. Elas mudam completamente a dinâmica das relações no trabalho, porque vão além do ouvir superficial — significam entender o que o outro sente e precisa.
Quando líderes praticam a empatia, eles criam um ambiente onde as pessoas se sentem acolhidas e seguras para expressar suas dificuldades e ideias. Isso aumenta a confiança, o engajamento e a colaboração, gerando times mais unidos e produtivos.
Por outro lado, para quem é liderado, uma liderança empática transforma o medo e a ansiedade em motivação e pertencimento. A escuta ativa demonstra respeito e valoriza a voz de cada indivíduo, fortalecendo vínculos e reduzindo conflitos.
No fim, liderar com empatia é liderar para o humano, reconhecendo que resultados consistentes nascem de relações saudáveis e genuínas.
12- Uma das dores mais profundas que você aborda é a sensação de invisibilidade. Como ela aparece no ambiente corporativo e quais são as consequências emocionais disso?
Resposta: A sensação de invisibilidade no ambiente corporativo é uma dor silenciosa, mas poderosa. Ela surge quando o esforço, as ideias e as emoções de uma pessoa não são reconhecidos, ou quando ela se sente ignorada nas decisões, nas conversas e até no simples “bom dia”.
Essa invisibilidade gera uma profunda solidão emocional, que corrói a autoestima e a motivação. A pessoa começa a duvidar do próprio valor e do seu lugar ali, o que pode levar ao desengajamento, ao isolamento e até a problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão.
Além disso, um colaborador que se sente invisível deixa de se engajar plenamente, e isso afeta a qualidade do trabalho e a dinâmica da equipe como um todo.
Reconhecer e valorizar as pessoas é fundamental não só para a saúde emocional individual, mas para o sucesso coletivo da organização.
(Continua na parte 2…)
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